Projeto de lei cria disputa entre sindicatos e associações por representação de servidores

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Projeto de lei cria disputa entre sindicatos e associações por representação de servidores

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FELIPE GUTIERREZ
SÃO PAULO, (FOLHAPRESS)

Sindicatos e associações que representam servidores públicos estão em disputa por causa de um projeto de lei que cria regras sobre como devem funcionar as negociações trabalhistas entre os funcionários e a administração pública no país. Hoje não há normas para temas como dissídio ou greve no setor.

A proposta legislativa, que regulamenta alguns temas no trabalho de servidores, chegou ao Congresso Nacional neste ano, e o relatório foi enviado a plenário em 1º de julho. Um parágrafo estabelece que associações de classe só poderão participar das negociações com a administração pública “no caso de inexistência de sindicatos legalmente constituídos”.

No texto substitutivo do relator André Figueiredo (PDT-CE), houve uma mudança: os sindicatos poderão convidar associações para participar de negociações, desde que elas tenham mais de dez anos de existência e que 25% de todos os servidores sejam associados.

As associações afirmam que estão sendo excluídas de um processo de decisão que afeta os associados, e centrais sindicais defendem que apenas sindicatos têm legitimidade constitucional para negociar.
As associações de servidores são mais tradicionais do que os sindicatos. Os funcionários só tiveram permissão para se sindicalizar a partir da Constituição de 1988, e as associações já eram funcionais havia décadas.

Em 2010, foi aprovado um decreto legislativo para regulamentar uma convenção da OIT (Organização Internacional do Trabalho) determinando que os servidores públicos têm direito à organização sindical, proteção contra discriminação por participar de sindicato e que devem ser criados mecanismos de negociação com o Estado. Em 2013, a mesma regulamentação veio por decreto da então presidente Dilma Rousseff (PT), mas até hoje não foram criadas as regras propriamente.

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Com o novo projeto, as centrais sindicais afirmam que a convenção da OIT trata especificamente de entidade sindical e que abrir a negociação a milhares de associações inviabilizaria operacionalmente o processo de negociação com os representantes da administração pública.

Segundo a exposição de motivos do projeto de lei do governo, a proposta é o resultado de discussões de um grupo de trabalho interministerial, instituído em agosto de 2023, que reuniu o Ministério do Trabalho e o Ministério da Gestão e Inovação.

O texto estabelece que a negociação será “estruturada e permanente, mediante pauta estabelecida entre a administração pública e as entidades representativas dos servidores e dos empregados públicos”. A proposta é que haja pelo menos uma rodada de negociação anual.
Para Pedro Armengol, da CUT, a exclusão das associações não é uma escolha arbitrária. “O projeto trata de entidade sindical, e associação não tem caráter sindical, ela tem caráter associativo, de lazer e outras atividades, menos sindical”, afirmou.

A proposta, para ele, não tira a legitimidade das associações, mas ele diz que legalidade elas não têm. Para Armengol, o problema é também prático: “Só na área federal há 8.000 associações, com mais 400 sindicatos. Eu queria entender como é que vai se organizar um processo de negociação com 8.400 entidades”.

A posição da central, afirma, é inegociável, e ele diz que já foi feita uma concessão às entidades no parágrafo que prevê que elas podem representar os servidores em locais onde não houver sindicato.

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Sérgio Antiqueira, do Sindsep (Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo), afirma que na Constituição reserva-se a prerrogativa de negociação coletiva exclusivamente aos sindicatos. “A associação não tem poder legal para firmar convenção, acordo coletivo.” Além disso, ele diz que o esforço histórico de regulamentação partiu do movimento sindical, unicamente.

Diretores de associações rebatem dizendo que se trata de uma posição autoritária. Marcos Batistela, da Fasp (Federação das Associações Sindicais e Profissionais de Servidores da Prefeitura de São Paulo), nega que a multiplicidade de entidades dificulte a negociação.

Ele afirma que existem oito centrais sindicais no país, o que já desmontaria a ideia da unicidade sindical. “Nenhum país que leva negociação coletiva a sério impõe unicidade sindical, [o problema seria resolvido] vendo qual é a entidade representativa de cada situação”, afirma.

Ele diz que o conteúdo do projeto é mais simbólico do que prático, porque não há o detalhamento de como vai funcionar o dissídio e a greve, e chama a proposta de ouro de tolo. “Cria-se uma vantagem competitiva para os sindicatos, que é excluir as associações, porém o servidor não ganha nada de substancial, como o direito ao dissídio coletivo.”

Antonio Tuccilio, ex-presidente da Associação dos Servidores Públicos do Estado de São Paulo, diz representar uma base que antecede os sindicatos e acusa o processo legislativo de ter sido capturado por interesses políticos.

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