Sob desgaste, Fachin tende a adiar caso Mendonça enquanto ministros discutem obstruir pauta do STF

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Sob desgaste, Fachin tende a adiar caso Mendonça enquanto ministros discutem obstruir pauta do STF

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LUÍSA MARTINS
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Em meio aos desgastes da crise do Master, o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, tende a adiar a análise sobre as alegações de abuso de autoridade contra o ministro André Mendonça, designado para a próxima quarta-feira (23).

A decisão deve ser tomada nos próximos dias, em um novo capítulo da escalada de tensões no Supremo, o que inclui um movimento inicial de ministros para obstruir as pautas mais sensíveis da corte.

A avaliação do entorno do presidente do tribunal é a de que, na prática, o pedido de vista do ministro Flávio Dino na sessão histórica de terça (15) inviabilizou tecnicamente que o caso de Mendonça vá ao plenário semana que vem.

Isso porque a vista ocorreu em uma questão de ordem que discute justamente se o pedido de investigação contra Mendonça deve ser julgado junto ou apartado do caso sobre as mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes.

Dois servidores da área técnica do STF afirmam que é ilógico levar o caso ao plenário, pois o impasse sobre a união ou separação dos processos ainda não se resolveu. O prazo do regimento interno para devolução do pedido de vista é de 90 dias.

A sessão plenária do dia 23, no entanto, está prevista com outros processos. Nesta quarta, Fachin disse que os ministros devem concluir o julgamento sobre licença-maternidade para mães adotivas, em uma sinalização de que o caso Mendonça de fato ficará fora da pauta.

Nesta quarta, um dia após as intensas brigas e provocações entre magistrados em torno do caso Master, o plenário se reuniu normalmente, ignorando os embates ríspidos da véspera.

Todos compareceram à sessão —Dino, por vídeo. Não houve menções ou pronunciamentos sobre o dia anterior. Os ministros começaram a julgar um processo sobre imunidade de ITBI (Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis), interrompido por pedido de vista de Moraes.

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Um momento descrito por um ministro como “de quase tensão” ocorreu quando o ministro Luiz Fux, que é da ala oposta a Moraes, fez uma crítica a pedidos de vista que paralisam julgamentos e congestionam gabinetes, mas não houve reações, e a sessão prosseguiu.

Apesar da aparente normalidade, ministros avaliam que as próximas sessões podem acabar contaminadas pela crise do Master. Relatos feitos à Folha por três ministros e auxiliares de outros dois apontam para risco de esvaziamento das reuniões presenciais.

Ao fim da sessão de terça, em um desabafo com um colega diante da frustração com a postura de Fachin, um magistrado chegou a ameaçar abusar dos pedidos de vista para que “nada mais ande” no STF até o fim do ano.

Na semana passada, em meio a uma guerra de liminares entre ministros de alas rivais sobre o afastamento ou não do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, Fachin cancelou as duas sessões plenárias da semana.

A leitura atual é de que o clima ficou muito pior depois desta terça, quando os bate-bocas se acumularam, com episódios entre Mendonça e Moraes (os dois principais antagonistas); Fachin e Dino; Mendonça e Gilmar Mendes; e Dino e Fux.

Um auxiliar de Fachin chegou a manifestar receio de que, em muitas das sessões vindouras, não seja alcançado o quórum mínimo de seis ministros para a realização dos julgamentos.

Se o cenário de esvaziamento for frequente, Fachin corre risco de, na prática, ter sua pauta de julgamentos em plenário obstruída, com a paralisação de debates de amplo alcance e que ainda estão pendentes de análise, como o da uberização.

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Ministros de diferentes grupos do tribunal, além de auxiliares técnicos, também projetam um boom de julgamentos em plenário virtual —uma forma de fazer a pauta andar sem dar margem para confrontos diretos, já que nessa modalidade os votos são dados por escrito.

Outro temor da equipe de Fachin é de que Moraes, Gilmar e Dino, que costumam ser mais vocais, desvirtuem a pauta de julgamentos para ressuscitar os temas relacionados à crise. Por isso, o presidente do STF sinalizou alívio com a urbanidade da sessão desta quarta.

Como mostrou a Folha, os três, junto ao ministro Cristiano Zanin, formaram uma espécie de aliança no início do ano para fazer frente à agenda de Fachin na presidência da corte, em meio às repercussões negativas da investigação sobre o Master.

Ao pedir vista na terça, Dino alertou que o modo como Fachin estava conduzindo a sessão poderia prolongar as tensões no Supremo por meses, o que coloca a corte no holofote do debate público em meio à campanha eleitoral.

Em 4 de setembro, Dino havia defendido que a corte continuasse julgando seus processos normalmente, mesmo em meio à escalada de ofensivas mútuas entre Moraes e Mendonça. Agora, tem sinalizado a interlocutores que não pensa mais assim.

Naquela semana, o STF se reuniu para a sessão e ignorou o contexto belicoso que já se desenhava. Para Dino, isso não significava “fingir que não há crise”, mas sim “fazer com que a toga fale mais alto do que as armas ou eventuais gritos de hipócritas”.

Porém, a sessão desta terça o fez mudar de ideia. Ele falou a um colega que considera o Supremo “acabado” pelo menos até o fim do ano e tem repetido que está “arrasado” com os rumos do tribunal.

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