‘Lua de mel’ de Flávio e remontada de Lula: O que mostraram as pesquisas eleitorais do 1º semestre?

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‘Lua de mel’ de Flávio e remontada de Lula: O que mostraram as pesquisas eleitorais do 1º semestre?

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) intercalaram momentos de leve vantagem perante o outro nas pesquisas Genial/Quaest, AtlasIntel e Datafolha do primeiro semestre.

Os primeiros meses do ano foram marcados por um crescimento acelerado das intenções de voto no filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A ascensão do senador estancou ao alcançar o patamar de vantagem estreita contra Lula. O cenário inverteu-se a partir do caso “Dark Horse”. Mesmo antes do escândalo que abalou a imagem de Flávio Bolsonaro, a aprovação ao governo do petista vinha dando sinais de melhora, com reflexos nos índices de intenção de voto.

Ao Estadão, especialistas analisaram as rodadas mensais das pesquisas Genial/Quaest, AtlasIntel e Datafolha durante o primeiro semestre. Segundo os analistas, o crescimento de Flávio foi impulsionado tanto pela rápida adesão do eleitor bolsonarista quanto pelo momento ruim de Lula na avaliação de governo. Na esteira do “pacote de bondades”, a remontada do presidente deu seus primeiros sinais, ainda sutis, antes da divulgação do áudio de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro. Eles ponderam, no entanto, que os índices continuam próximos e não apresentam uma tendência capaz de encerrar a disputa.

O caso “Dark Horse” é um ponto de inflexão na corrida eleitoral, mas não encerrou a disputa. Enquanto a intenção de voto em Flávio Bolsonaro foi baqueada, mas demonstrou-se resiliente, o fôlego de Lula depende de fatores que ainda devem ser consolidados pela pré-campanha do petista.

‘Lua de mel’ de Flávio

Até dezembro de 2025, mesmo inelegível, Jair Bolsonaro mantinha-se como pré-candidato ao Planalto no ano seguinte. O filho “01” já era especulado como representante da família na eleição presidencial, mas concorria pela indicação contra outros nomes, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).

Nos meses seguintes, as pesquisas apontaram para um crescimento acelerado das intenções de voto no senador.

Em janeiro, segundo a Genial/Quaest, Lula venceria um segundo turno contra Flávio Bolsonaro por 45% a 38% dos votos, com 17% de votos brancos, nulos ou indecisos. A vantagem de sete pontos porcentuais do petista minguou sucessivamente nas rodadas seguintes. Dois meses depois, em março, o presidente e o senador estavam em empate numérico: 41% de intenções de voto para cada, com 18% de brancos, nulos e indecisos. No mês seguinte, o cenário de empate técnico persistia, mas Flávio já detinha vantagem numérica: 42% dos votos contra 40% de Lula, com 18% de nulos, brancos ou indecisos.

O Datafolha registrou a mesma tendência. O instituto não fez simulações de segundo turno entre Lula e Flávio nos meses de janeiro e fevereiro, mas um comparativo entre dezembro de 2025 e março de 2026 dá noção do crescimento do senador no período.

Em dezembro do ano passado, segundo o Datafolha, Lula venceria um segundo turno contra Flávio Bolsonaro por 51% a 36% dos votos, com 13% de brancos, nulos e indecisos. Três meses depois, a vantagem de Lula foi de quinze para três pontos porcentuais, configurando empate técnico: 46% do presidente contra 43% do senador, com 11% de nulos, brancos e indecisos.

No mês seguinte, Flávio Bolsonaro cresceria ainda mais, passando a deter leve vantagem no empate técnico, com 46% de intenções de voto contra 45% de Lula, com 9% de brancos, nulos e indecisos.

Na mesma linha, as pesquisas AtlasIntel apontam que, em dezembro de 2025, Lula venceria Flávio Bolsonaro por 53% a 41% dos votos em um eventual segundo turno, com 6% de brancos, nulos e indecisos. Em fevereiro do ano seguinte, os pré-candidatos estavam em empate numérico, com 46,3% de intenções de voto para cada. Eles seguiram em empate técnico até a pesquisa de abril. Em maio, num levantamento realizado após o áudio de pedido de dinheiro a Vorcaro, Flávio despencou seis pontos porcentuais, afastando-se do rival na sondagem de segundo turno.

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O governo federal também era prejudicado pelo avanço das investigações sobre o Banco Master, embora não estivesse implicado no caso. Em março, segundo a AtlasIntel, 39,5% dos entrevistados achavam que os aliados de Lula eram os mais envolvidos no esquema, enquanto 28,3% achavam que os aliados de Bolsonaro tinham mais participação no caso. Esse quadro viria a se inverter dois meses depois, após o caso “Dark Horse”.

A ascensão de Flávio coincide com um momento ruim na avaliação de Lula. De janeiro a abril de 2026, segundo a Genial/Quaest, a desaprovação à gestão federal variou de 49% para 52%.

Para Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (Fespsp), a avaliação do governo é o “grande problema” da pré-candidatura de Lula. Segundo o professor, a avaliação ruim da gestão federal dá ao petista um teto estreito na corrida eleitoral, além de deixá-lo na “defensiva” do debate público.

Nesse sentido, de fevereiro a abril, além do cenário desfavorável nos índices de aprovação, a percepção das notícias sobre o governo foi mais negativa do que positiva, segundo a Genial/Quaest. Em abril, as notícias sobre a gestão Lula foram “mais negativas” para 48% dos eleitores, enquanto 23% afirmaram que o noticiário foi “mais positivo”. O índice de percepção negativa cresceu sete pontos porcentuais em relação a fevereiro, quando marcou 41%.

Para Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, Flávio Bolsonaro passou por uma “lua de mel” ao apresentar a pré-candidatura em um momento oportuno para a oposição.

“O governo passava por um momento muito ruim, e o Flávio surgiu como alternativa da oposição. Com isso, conseguiu reunir um patamar já consolidado pelos eleitores do pai, mas conquistou também os eleitores moderados, que é onde a batalha das eleições vai ser travada”, disse o professor.

Já para Beto Vasques, também professor da Fespsp, o crescimento de Flávio Bolsonaro também pode ser explicado pelo senador ter “jogado desmarcado” durante os primeiros meses de pré-candidatura, ou seja, não ter sofrido críticas mais contundentes de seu principal adversário. Como mostrou o Estadão, ao notar o ritmo com que o senador crescia nas pesquisas, o PT abandonou a estratégia de reservar a artilharia contra o pré-candidato do PL apenas após o início da campanha.

‘Dark Horse’ como ponto de virada

A partir de abril, por um lado, as pesquisas registravam a desaceleração das intenções de voto em Flávio Bolsonaro. Por outro, o senador já detinha leve vantagem contra Lula, embora o cenário permanecesse embolado. O quadro mudou a partir da divulgação, pelo site Intercept Brasil, de um áudio em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”, cujo roteiro é inspirado na vida do pai.

A rodada de maio da Genial/Quaest foi publicada horas antes da divulgação do áudio de Flávio a Vorcaro. O levantamento mostra que Lula já vinha apresentando sinais de melhora mesmo antes do abalo que Flávio sofreria após o “Dark Horse”, na esteira do “pacote de bondades”, como são chamadas as medidas em que o governo federal aposta para melhorar sua aprovação a meses das eleições.

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Em maio, 50% dos entrevistados pela Genial/Quaest avaliou o Desenrola 2.0 como uma “boa ideia”. No mês seguinte, o índice dos que olham a medida com bons olhos seguiu o mesmo, mas atingiu mais eleitores: o conhecimento do programa passou de 57% para 61% dos entrevistados.

A isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais também surtiu efeito. Segundo a Genial/Quaest, o índice dos que afirmaram que a renda “aumentou significativamente” com a medida subiu de 17% para 23% entre abril e junho. Segundo a pesquisa, o impacto foi mais sentido entre os eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos.

Para Leandro Consentino, o áudio “nivelou por baixo” a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, demovendo o eleitor que havia declarado voto no senador nas rodadas anteriores por percebê-lo como uma “alternativa” à pecha de corrupção associada a Lula.

No mesmo sentido, Beto Vasques observa que, após a divulgação do áudio, Flávio Bolsonaro caiu mais entre eleitores “independentes” e de “direita não bolsonarista”, segundo a denominação usada pela Genial/Quaest.

Antes do áudio, segundo a Genial/Quaest, 31% dos eleitores independentes votariam em Flávio Bolsonaro, e 29%, em Lula, com 35% de abstenções e 5% de indecisos. Um mês depois, Lula foi a 37% de intenções de voto no segmento, e Flávio, a 24%. A abstenção registrou 30%, e os indecisos, 9%. Nesse segmento, a margem de erro da pesquisa é de quatro pontos porcentuais. Entre a direita não bolsonarista, a intenção de voto em Flávio Bolsonaro passou de 88% para 82%. A margem de erro nesse grupo é de cinco pontos porcentuais.

Os eleitores independentes também têm se inclinado para o governo, segundo a Genial/Quaest. Em abril, a diferença entre os que desaprovavam a gestão federal e os que a aprovavam era de 26 pontos porcentuais (58% a 32%, respectivamente). O intervalo reduziu vinte pontos porcentuais desde então, indo a seis pontos na rodada de junho (47% a 41%).

O que está por vir?

Apesar da altercação de leves vantagens perante o outro, Lula e Flávio Bolsonaro, a rigor, permaneceram em empate técnico durante boa parte do semestre. Para Aldo Fornazieri, o enredo das pesquisas do primeiro semestre aponta para um “ponto de partida” da campanha, mas não esboçou, por enquanto, uma tendência capaz de encerrar a disputa. Segundo o professor, a intenção de voto só é definida de forma mais clara a partir do momento que o ambiente da campanha é “introjetado” pelo eleitor.

Para Beto Vasques, a disputa ponto a ponto entre Lula e Flávio Bolsonaro aponta para uma campanha suscetível à “agenda factual”, ou seja, aos efeitos do noticiário sobre os humores do eleitorado.

Já Leandro Consentino avalia que, apesar do cenário polarizado, o jogo não se encerrou entre os eleitores independentes, campo de batalha mais decisivo da eleição.

O professor relembra que, durante o primeiro semestre, os cenários das pesquisas relacionaram-se com a inclinação do eleitorado independente, que ora esteve mais próximo de Flávio, e, após “Dark Horse”, voltou-se para o governo.

“Ninguém cristalizou uma vantagem enorme nem de um lado nem de outro. Isso significa que, de novo, parecemos estar caminhando para uma eleição a ser decidida pelos moderados”, disse o cientista político.

Estadão Conteúdo

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