Armadilha das Apostas: Dr. Marcello Henrique e Dr. Hewdy Lobo Alertam para o Vício Que Rende Milhões às Bets

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Com perdas financeiras colossais, ruína familiar e impactos psiquiátricos profundos, especialista em Psiquiatria Forense e advogado de referência desvendam as engrenagens da ludopatia — desde as alterações químicas no cérebro até a responsabilização das plataformas e o banco dos réus.

Por Julia Dastanho | São Paulo 

Editoria de Reportagens Especiais e Saúde Pública

A promessa do “ganho fácil” na palma da mão deixou de ser um passatempo inofensivo para se consolidar como uma das maiores crises de saúde pública, social e econômica da história recente do Brasil. O avanço avassalador das plataformas de apostas online — conhecidas popularmente como bets — tem arrastado milhares de famílias para um abismo financeiro e psicológico de proporções milionárias.

A ludopatia, ou transtorno do jogo compulsivo, é uma doença grave e progressiva. Enquanto as operadoras faturam cifras bilionárias explorando a vulnerabilidade dos apostadores, do outro lado da tela multiplicam-se histórias de falência, isolamento, colapso conjugal e, em casos mais severos, o enveredamento por condutas ilícitas para financiar a compulsão.

Para entender a anatomia desse fenômeno de forma abrangente e rigorosa, nossa reportagem entrevistou duas das maiores autoridades do país em suas respectivas áreas: o renomado Médico Psiquiatra Forense Dr. Hewdy Lobo Ribeiro — com atuação de destaque em perícias de casos criminais de grande repercussão nacional — e o Dr. Marcello Henrique, Advogado cível e criminalista.

Nesta reportagem especial, eles desmistificam a ilusão das apostas, detalham como a química cerebral é alterada pelo vício, cobram responsabilidades das empresas e influenciadores, e explicam a complexa fronteira entre a doença mental e o processo penal.

PARTE 1 — A MENTE ENCURRALADA: O VÍCIO SEGUNDO A PSIQUIATRIA FORENSE

Quando o Lazer se Transforma em Doença Mental

De acordo com o psiquiatra Dr. Hewdy Lobo Ribeiro, a linha que separa o mero entretenimento da ludopatia é demarcada pelo prejuízo multifacetado e pela perda absoluta de controle voluntário sobre o ato de apostar.

“Clinicamente, o hábito de jogar passa a ser categorizado como doença mental quando a pessoa começa a ter prejuízos evidentes em seu bem-estar geral, perdas financeiras expressivas, rompimentos de vínculos familiares e sérias dificuldades para trabalhar. Ela passa a sentir prazer quase exclusivamente no jogo, perdendo completamente a capacidade de controlar o impulso e parar” — explica o Dr. Hewdy Lobo.

 

O especialista aponta os principais sinais de alerta que a família e amigos devem observar antes que o estrago patrimonial seja irreversível.

Substituição da rotina: O indivíduo abandona seus hálitos habituais de lazer, o convívio social, o trabalho e os interesses pessoais para dedicar todo o seu tempo ao jogo.

Comprometimento financeiro: Deixa de cumprir compromissos básicos de subsistência (como contas da casa, saúde e alimentação) sob o argumento distorcido de que está “investindo” nos jogos.

Monotema dialógico: Nos momentos de convivência, foca quase que exclusivamente em estratégias de jogo, lucros passados ou formas de recuperar o dinheiro perdido, abandonando outros temas de interesse.

O Sequestro da Dopamina: Cérebro Funcionando Como o de um Dependente Químico

Um dos pontos mais alarmantes revelados pelo Dr. Hewdy Lobo reside no mecanismo neurobiológico desencadeado pelas apostas digitais e jogos de resultado instantâneo (como os populares slots e caça-níqueis digitais).

A mecânica de resposta rápida e o estímulo constante provocam alterações profundas na química cerebral, afetando sobretudo a transmissão da dopamina — o neurotransmissor ligado ao prazer, recompensa e motivação.

“Ocorre uma alteração patológica do pensamento racional. O raciocínio do indivíduo vai se estreitando e empobrecendo de tal forma que ele perde a habilidade de enxergar múltiplas soluções para os seus problemas. Por vezes, ele chega a uma única e trágica interpretação: a de que as perdas financeiras só podem ser compensadas com mais jogo” — alerta o psiquiatra forense.

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Esse mecanismo explica a paradoxal sensação em que a própria perda estimula o indivíduo a continuar jogando, na tentativa desesperada de “recuperar” o prejuízo, mesmo diante de todas as evidências em contrário apresentadas por familiares e pela matemática.

“Este mecanismo neurobiológico é extremamente semelhante ao dos dependentes químicos de drogas lícitas, como o álcool, e ilícitas, como a cocaína” — enfatiza o Dr. Hewdy Lobo.

 

Mapeando a Vulnerabilidade: Quem São as Maiores Vítimas?

Embora a ludopatia possa atingir pessoas de qualquer classe social ou instrução, o Dr. Hewdy Lobo elenca perfis e condições que aumentam drasticamente a suscetibilidade ao vício:

Histórico de Dependência: Indivíduos com histórico familiar ou pessoal de dependência de jogos ou consumo compulsivo de álcool e outras drogas.

Histórico Financeiro Problemático: Pessoas que já apresentavam maus hábitos de endividamento ao longo da vida.

Rigidez Cognitiva e Comportamental: Perfis de personalidade resistentes a aceitar ajuda e propensos a tomar decisões irracionais de forma persistente.

Ausência de Válvulas de Escape: Pessoas que não praticam esportes e possuem um repertório limitado para solucionar conflitos emocionais ou estresse do cotidiano.

Condições Neurocognitivas: Indivíduos com quadro de retardo mental leve ou déficits na tomada de decisão.

PARTE 2 — O ECOSSISTEMA DAS “BETS”: RESPONSABILIDADE CIVIL, CORPORATIVA E COMERCIAL

A Ilusão da Neutralidade das Plataformas

Se o cérebro do apostador enfrenta vulnerabilidades biológicas, o ambiente onde as apostas ocorrem é desenhado para maximizar a permanência e os depósitos. Para o advogado especialista Dr. Marcello Henrique, a tese de que as plataformas de apostas são “ambientes neutros” não se sustenta perante o ordenamento jurídico atual.

“A primeira questão é compreender que uma plataforma de apostas não pode mais ser vista simplesmente como um ambiente neutro que recebe uma aposta e paga eventual prêmio. Estamos diante de uma atividade econômica regulada e que lida permanentemente com comportamento humano, dinheiro e risco de dependência” — pontua o Dr. Marcello Henrique.

O jurista enfatiza que as operadoras dispõem de algoritmos sofisticados e métricas detalhadas que revelam com exatidão quando um usuário entra em padrão compulsivo — demonstrado por picos de depósitos, frequência desmedida, tempo exagerado de tela e tentativas frustradas de pausar.

“Não se defende que toda perda gere responsabilidade da empresa, pois a aposta envolve risco. O ponto central é outro: até que ponto uma empresa pode identificar um comportamento manifestamente problemático e, ainda assim, continuar estimulando aquele usuário a apostar? Quanto maior a capacidade tecnológica de conhecer e estimular o consumidor, maior deve ser a responsabilidade no uso desses dados para protegê-lo.”

Influenciadores e a Ilusão do “Dinheiro Fácil”

Outro braço forte do avanço das bets sobre a população é a publicidade ostensiva, frequentemente intermediada por personalidades digitais e influenciadores de grande alcance.

Ao comentarem a venda do jogo como “estratégia de renda extra” ou “estilo de vida de sucesso”, o Dr. Marcello Henrique relembra que a legislação brasileira avançou expressamente para enquadrar esses excessos.

“Aposta não pode ser vendida como investimento. Perda não pode ser escondida enquanto somente os ganhos são exibidos. Quando alguém recebe valores para influenciar as decisões econômicas de milhões de pessoas, existe responsabilidade direta sobre a maneira como a mensagem é apresentada” — reforça o jurista.

Autoexclusão Centralizada: A Barreira Tecnológica de Proteção

Para conter o avanço do vício e impedir que o patrimônio familiar seja inteiramente dilapidado, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda instituiu a Plataforma Centralizada de Autoexclusão.

Através desse mecanismo governamental, qualquer cidadão pode solicitar formalmente o bloqueio do seu CPF perante todas as casas de apostas autorizadas a operar no país, sem a necessidade de contatar site por site.

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O Dr. Marcello Henrique destaca que essa ferramenta cria um dever jurídico inviolável para as empresas:

“Depois que o cidadão formaliza sua autoexclusão na plataforma centralizada, a casa de apostas não pode ignorar essa manifestação. Se uma empresa autorizada permitir que um usuário formalmente autoexcluído continue apostando, esse fato deve ser documentado. Poderá haver sérias consequências administrativas e discussões sobre reparação civil e consumerista por parte da operadora.”

PARTE 3 — QUANDO O VÍCIO VIRA CRIME: A PSIQUIATRIA FORENSE E O PROCESSO PENAL

O Caminho da Desesperança ao Banco dos Réus

À medida que as economias se esgotam e os limites de crédito bancário são atingidos, muitos ludopatas acabam sucumbindo a situações extremas para manter o fluxo de apostas ou tentar cobrir dívidas astronômicas acumuladas com agiotas ou terceiros.

Furtos, estelionatos, apropriação indébita, falsificações de documentos e fraudes financeiras passam a integrar a cronologia do vício em quadros graves. É nessa interseção dramática que o Direito Criminal e a Psiquiatria Forense se encontram.

O Dr. Hewdy Lobo Ribeiro e o Dr. Marcello Henrique chamam a atenção para o rigor e a responsabilidade com que a Justiça deve encarar esses casos.  

“A ludopatia não transforma um crime em conduta lícita e não significa automaticamente que a pessoa seja inimputável perante a lei” — adverte o Dr. Marcello Henrique. — “Porém, o processo penal não pode simplesmente ignorar a presença de um transtorno mental grave quando existirem elementos científicos concretos demonstrando sua relevância no momento dos fatos.”

O Papel do Artigo 26 do Código Penal e a Prova Pericial

No Brasil, a análise da responsabilidade penal de um indivíduo com transtorno psíquico baseia-se no Artigo 26 do Código Penal, que avalia se, ao tempo da ação ou omissão, o agente era inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

É nesse ponto que a atuação técnica do perito psiquiatra forense — como o Dr. Hewdy Lobo — torna-se determinante para instruir o juiz.

“As apostas digitais deixam rastros tecnológicos valiosos. Extratos bancários, transferências instantâneas e a destinação direta dos recursos obtidos ilicitamente para as plataformas ajudam a reconstruir a linha do tempo do transtorno. Esses elementos subsidiam a perícia médica para avaliar a real intensidade da compulsão” — explica o Dr. Marcello Henrique.

O advogado conclui com uma reflexão central sobre a justiça punitiva:

“O Direito Criminal não deve transformar a ludopatia em uma desculpa universal. Mas também não pode fechar os olhos para o que a Medicina e a Psiquiatria Forense demonstrarem cientificamente. Responsabilizar corretamente significa, antes de tudo, compreender a real condição daquele que está sendo julgado.”

COMO BUSCAR AJUDA E CESSAR O CICLO

Diante da dimensão do problema, especialistas são unânimes: a prevenção e a intervenção precoce continuam sendo os melhores caminhos. A família desempenha papel fundamental ao identificar os sinais iniciais e agir com firmeza, buscando amparo médico e medidas de proteção patrimonial antes que a ruína seja total.

Redes de Apoio Gratuito e Canais Oficiais:

Sistema Único de Saúde (SUS): O atendimento para dependência e transtornos do jogo é disponibilizado gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Jogadores Anônimos (JA): Grupo de ajuda mútua baseado na troca de experiências, oferecendo reuniões presenciais e virtuais em todo o país para acolhimento de jogadores e seus familiares.

Plataforma Centralizada de Autoexclusão: Acesso pelo portal do Ministério da Fazenda para cadastrar o bloqueio nacional do CPF junto às casas de apostas autorizadas.

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