Apoiada em verbas milionárias e certa da vitória, a deputada abandonou a base que a sustentava — apenas para descobrir que o dinheiro não compra o quociente eleitoral.
GOIÁS | Entorno — Na política proporcional brasileira, a derrota raramente é um evento isolado. Por vezes, ela resulta de uma equação onde se somam escolhas partidárias desastrosas em salas fechadas e o desgaste silencioso das relações políticas na base. Foi precisamente esse o cenário que culminou no fim da trajetória de Lêda Borges na Câmara dos Deputados nas Eleições de 2026.
Ao trocar a chapa do Partido Liberal (PL) pela estrutura do Republicanos, a parlamentar migrou atraída por uma oferta tentadora de repasse do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e promessas de protagonismo partidário. Contudo, a matemática do Quociente Eleitoral, combinada com o distanciamento de sua própria base histórica, transformou a disputa em uma armadilha perfeita: mesmo obtendo 69.412 votos nas urnas, Lêda Borges viu seu mandato evaporar.
O Salto de Salto Alto e o Descarte de Aliados Históricos
Além do erro técnico de cálculo partidário, o pleito de 2026 expôs a vulnerabilidade do modelo de articulação política adotado pela deputada. Nos bastidores e nos municípios onde costumava liderar, o clima que antecedeu o dia da votação já sinalizava rachas profundos.
Movida pela convicção antecipada de que a reeleição estaria garantida pela estrutura financeira do novo partido, Lêda Borges optou por afastar e colocar em segundo plano lideranças locais, assessores de campo e apoiadores comunitários que haviam sustentado suas vitórias em campanhas passadas. Relatos de bastidores em cidades do Entorno do DF descrevem um padrão recorrente de conduta: a aproximação intensa durante os períodos de busca por apoio, seguida pelo descarte sumário assim que os objetivos eleitorais eram atingidos.
Essa postura — classificada por ex-aliados como um misto de soberba e ingratidão — minou a militância orgânica que costumava buscar o “voto de opinião” de porta em porta. Ao ignorar as pessoas que construíram suas bases ao longo de anos e confiar que a alta verba partidária substituiria o trabalho de campo tradicional, a candidata enfraqueceu a sua capacidade de mobilização justamente no momento em que precisava de cada voto para superar as margens do sistema proporcional.
O Peso da Verba x A Matemática das Urnas
O Fundo Eleitoral do Republicanos garantiu à candidata uma estrutura de campanha robusta, com presença ostensiva em redes sociais e forte apelo visual. Entretanto, a estratégia ignorou a dinâmica das sobras e a necessidade de tração coletiva da legenda. Para que um partido eleja múltiplos representantes, é fundamental que a soma de todos os candidatos e dos votos de legenda atinja múltiplos do Quociente Eleitoral (QE).
Os dados oficiais consolidados expõem o abismo criado pela escolha partidária e pela perda de fôlego eleitoral:
O Cenário no Republicanos: O partido somou votos suficientes para alcançar apenas 1 cadeira titular no estado de Goiás, arrematada por Marussa Boldrin (88.808 votos). Com 69.412 votos, Lêda Borges terminou como a 2ª mais votada da legenda e caiu para a 1ª suplência.
O Cenário Hipotético no PL: Puxado por uma expressiva votação de legenda e por nomes de forte apelo popular como Fred Rodrigues (152 mil votos), Magda Mofatto (131 mil) e Major Vitor Hugo (104 mil), o PL elegeu 4 deputados, sendo que a última vaga foi preenchida com cerca de 43 mil votos. Se estivesse no PL, os 69 mil votos de Lêda a teriam mantido na Câmara com folga.
A Lição do Pleito de 2026
O resultado das urnas em 2026 deixou duas lições claras para a política goiana. A primeira é técnica: a busca pelo financiamento imediato de um partido não compensa a ausência de uma chapa proporcionalmente forte. A segunda é humana e política: eleição não se vence apenas com verba partidária e marketing, mas com a manutenção de alianças e o respeito às bases que sustentam o mandato.
Ao priorizar o cofre da sigla e dar como certa uma vitória que dependia da lealdade daqueles que escolheu afastar, Lêda Borges obteve os recursos para a campanha, mas perdeu os votos e a legenda necessários para continuar em Brasília. A partir de 2027, assumirá a posição de primeira suplente, vendo de fora o mandato ser exercido por quem soube calcular melhor os números — e tratar melhor os aliados.








