45 anos depois, Aids ainda atrai preconceito e mata milhares por ano no Brasil

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45 anos depois, Aids ainda atrai preconceito e mata milhares por ano no Brasil

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LUIS EDUARDO DE SOUSA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O ano de 1981 foi marcante para o Brasil. O país rumava para o fim da ditadura militar, com o atentado do Riocentro e a abertura política sob João Figueiredo. Pelé foi eleito “atleta do século” pelo jornal francês LÉquipe. Silvio Santos inaugurou o SBT.

Um abalo sísmico contrário, porém, chegou pelo noticiário de saúde: em 5 de junho daquele ano, os Estados Unidos identificaram o começo de uma epidemia de Aids que se tornaria global e atingiria também a sociedade brasileira pelos 45 anos seguintes, completos nesta sexta-feira (5). Quase meio século depois, o país ainda amarga duros índices, com milhares de novos diagnósticos e mortes por ano.

Desde 1982, quando a epidemia chegou ao Brasil, 1,6 milhão conviveram com o HIV. Destes, 1,1 milhão de casos progrediram para Aids, segundo o DataSUS. Até o fim de 2024, 402 mil pessoas morreram pela doença.

O vírus que encurtou a vida de Cazuza (1990), Freddie Mercury (1991) e Renato Russo (1996) contaminou 25.571 pessoas no ano passado e matou 9.157 em 2024 no Brasil.

Vista então como uma sentença de morte, a Aids ganhou tratamentos que derrubaram sua letalidade. O estigma, contudo, permanece como um obstáculo à eliminação da doença, afirma Alvaro Costa, infectologista do Hospital das Clínicas e sub-investigador da Unidade de Pesquisa do Centro de Referência e Tratamento DST/Aids.

“Nos anos 1990, era uma doença fatal, com expectativa de vida curta e intenso estigma. Hoje, é uma doença crônica tratada: os pacientes têm uma ótima qualidade de vida, remédios disponíveis no SUS e prevenção. Mas o estigma é o mesmo. As pessoas ainda se escondem, têm medo e são julgadas”, diz.

Para o médico, não se trata apenas de narrativa. O estigma impede um debate sério sobre a doença e novos tratamentos.

“Existem bons estudos, com robustez, com comprometimento. Mas diferentemente do câncer, por exemplo, o HIV ainda remete a tabu, à sexualidade das pessoas e à discussão moral”, afirma Costa.

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Há exemplos recentes de retrocesso ligado ao conservadorismo. Em 2025, o governo Donald Trump promoveu uma série de cancelamentos de programas sobre HIV/Aids nos Estados Unidos. Também cortou bilhões de dólares em ajuda externa.

A Aids completa 45 anos sem cura e sem vacina, mas há avanços em tratamento e prevenção. Se nos anos 1990 pacientes com HIV precisavam tomar mais de 20 comprimidos ao longo do dia, em esquemas complexos e com efeitos colaterais severos, hoje é possível controlar a infecção com um único comprimido diário.

Os antirretrovirais modernos reduzem a carga viral a níveis indetectáveis, impedindo a transmissão sexual do vírus.

Outro marco foi o surgimento da PrEP (profilaxia pré-exposição), adotada na década de 2010 em diversos países e em 2017 no SUS. O método consiste no uso de antirretrovirais por pessoas que não têm HIV, mas apresentam maior risco de exposição ao vírus. Quando utilizada corretamente, a PrEP reduz em 99% a chance de infecção e é hoje uma das principais formas de prevenção da doença.

O acesso a essas ferramentas, contudo, ainda é desigual, avalia Costa. “O que vemos no Brasil é uma boa rede de apoio nos grandes centros, sobretudo no Sudeste, e o interior desfavorecido. Temos médicos que ainda não conhecem PrEP, municípios sem testagem, pessoas sem informação. O controle da Aids depende de ações integradas: PrEP, camisinha e testagem. Se algum deles falha, há prejuízos”, afirma.

Vando Oliveira, 55, recebeu o diagnóstico de Aids em novembro de 1998. Acompanhou, ao longo de 28 anos, as mudanças nas estratégias de saúde para conter a doença e viu avanços e retrocessos, afirma.
“O preconceito ainda não está vencido, e a Aids saiu de pauta. Todo dia tem gente se infectando, todo dia tem gente morrendo. Não se pode baixar a guarda”, diz.

Ele conta que já havia medicação disponível quando recebeu o diagnóstico, mas foi tomado por uma insegurança sobre o futuro. “Como eu ia chegar em casa e dizer à minha filha que eu tinha Aids? Como contar para os meus amigos? Mais do que sofrer preconceito, era expor pessoas que você ama ao julgamento alheio.”

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Hoje coordenador da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV no Ceará, Oliveira diz que diariamente conhece novas histórias com o mesmo dilema, que castiga principalmente as pessoas em maior vulnerabilidade.

“O perfil de quem tem Aids é a pessoa pobre, negra e periférica. Justamente quem tem menos informação, renda e acesso à saúde. Lidamos com 900 famílias que dependem de cesta básica para se alimentar. Quantas estão sem pedir? Há pessoas vivendo com HIV e com fome. Como se toma remédio com fome?”, questiona.

Oliveira avalia que houve nos últimos anos um afrouxamento das políticas sobre Aids, decorrente de uma falsa percepção de que a doença não mais representava perigo, influenciada pelos avanços no tratamento.

“Hoje eu tomo remédio todo dia e vivo bem, mas ainda há muita gente com Aids no Brasil sem remédio, vide o número anual de mortes. Isso o Estado não pode permitir”, diz.

De acordo com o boletim epidemiológico de Aids de 2025, o Brasil registrou em 2024 uma taxa de 3,4 óbitos para cada 100 mil habitantes, o menor índice de mortalidade da série histórica. De 2023 para 2024 houve queda de 12,8% no número de mortes, passando de 10.500 para 9.157.

O perfil de quem se infecta mudou ao longo das décadas. Após anos de feminização, a epidemia voltou a se concentrar em homens. Em 2024, havia 28 homens vivendo com HIV para cada 10 mulheres.

Pretos e pardos representavam 59,7% de todos os novos registros, enquanto a participação de pessoas brancas caiu para 36,8%. Por fim, o documento do Ministério da Saúde destaca que o número de pessoas com 60 anos ou mais com HIV aumentou 46,2% na última década.

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