Careca do INSS acertou com amiga de Lulinha ações para ‘abrir portas’ no governo federal

careca-do-inss-acertou-com-amiga-de-lulinha-acoes-para-‘abrir-portas’-no-governo-federal
Careca do INSS acertou com amiga de Lulinha ações para ‘abrir portas’ no governo federal

publicidade

Conversas da lobista Roberta Luchsinger obtidas pela Polícia Federal mostram o planejamento de ações para “abrir portas” no governo federal aos negócios do empresário Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, investigado por suspeita de liderar um esquema de desvios de aposentadorias e pensões. Os diálogos foram usados para embasar as novas investigações sobre a atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o filho mais velho do presidente Lula. Roberta é amiga de Lulinha, como é conhecido Fábio Luís.

Nos diálogos, o Careca do INSS sugere a Roberta que ela buscasse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), menciona acesso a diretores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cita uma investida na Dataprev e diversos outros negócios que seriam oferecidos ao governo federal. Lulinha é alvo de dois inquéritos abertos pela Polícia Federal com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar tráfico de influência no Ministério da Saúde e na Dataprev.

O Estadão teve acesso a relatórios da PF produzidos no final do ano passado contendo mensagens inéditas trocadas entre Roberta Luchsinger e o Careca do INSS. O material, em conjunto com outros elementos obtidos da quebra do sigilo telemático de Roberta, foi usado pela PF para pedir a abertura das investigações sobre tráfico de influência de Lulinha e seus aliados no governo do pai dele. Os inquéritos foram abertos na semana passada.

Procurada, a defesa de Lulinha afirmou que ele “não tem relação direta ou indireta com os negócios de Roberta Luchsinger”, classificou as investigações da PF de “pesca probatória” e disse que a abertura de novos inquéritos sobre outros assuntos comprova que não foi encontrada nenhuma relação do filho do presidente com os desvios do INSS. A defesa de Roberta Luchsinger não se manifestou. A advogada do Careca do INSS, Danyelle Galvão, afirmou que a defesa não teve acesso à investigação nem ao conteúdo do celular dele e por isso não iria se manifestar. Alexandre Padilha afirmou por meio de sua assessoria que não recebeu Roberta nenhuma vez no Ministério da Saúde após ter assumido a pasta em março de 2025 (leia ao final).

As conversas ocorreram a partir de maio de 2025, pouco depois que o Careca do INSS havia sido alvo da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal. Por causa disso, ele passou a discutir com Roberta Luchsinger um plano de colocar outras pessoas à frente dos negócios, depois que ele foi exposto por causa da operação policial. Mesmo assim, o Careca do INSS continuou fazendo planos para o avanço dos negócios com o governo federal.

Em 8 de maio de 2025, o Careca do INSS enviou uma longa mensagem a Roberta Luchsinger resumindo todos os planos de negócios discutidos entre eles. Na mensagem, ele cita um negócio de cannabis medicinal que tentava implantar no Brasil e afirma que atuava também para um laboratório químico de Goiás na prospecção de negócios no Ministério da Saúde para venda de kits de dengue e de um suplemento alimentar infantil. A PF já abriu um inquérito para apurar se esses negócios na área da Saúde tiveram a participação de Lulinha e resultaram em crimes de tráfico de influência e outros delitos.

A defesa de Lulinha já admitiu em ofício ao STF que o filho do presidente teve uma viagem a Portugal bancada pelo empresário Antônio Camilo Antunes para conhecer um projeto de cannabis. A viagem foi em novembro de 2024. Lulinha negou, porém, ter firmado qualquer negócio ou recebido valores do empresário.

Leia Também:  STF forma maioria para manter prisão preventiva de Bolsonaro

Segundo a PF, o Careca do INSS também cita um projeto sobre educação financeira que tentou emplacar no governo federal e afirma que o empresário Cléber Ribas, dono de uma empresa de tecnologia, poderia assumir a gestão desse negócio para que seu nome não aparecesse mais. Ribas afirmou anteriormente que tem amizade pessoal com Lulinha e Roberta Luchsinger, mas disse que nunca obteve contratos no governo federal por causa deles. “Nem Cleber Ribas nem a empresa da qual é CEO, a 3Structure IT Ltda., celebraram qualquer acordo ou contrato com Antonio Camilo Antunes. Conforme já esclarecido às autoridades, o executivo foi procurado em 2025 por Antunes, que apresentou um projeto voltado à educação financeira. O tema, porém, não avançou, por não ter relação com as atividades da empresa”, disse em nota.

Na mensagem, o Careca do INSS chega a fazer uma divisão de valores dos negócios e menciona uma fatia na Dataprev, empresa pública federal de tecnologia. Como revelou o Estadão, a PF abriu um segundo inquérito para apurar se Lulinha e esses outros aliados cometeram tráfico de influência em negócios na Dataprev. Um terceiro pedido de inquérito foi enviado ao STF, mas está sendo distribuído e analisado pela Corte.

prints 1

Dias após essa mensagem, o Careca do INSS pede a Roberta para conversarem pessoalmente. “Acho que vc poderia escolher um local neutro pra gente se encontrar. O que vc acha?”, escreveu a ela. “Claro. Bora. Essa semana tô aí”, respondeu Roberta, em 12 de maio de 2025.

Eles prosseguiram discutindo os negócios nos dias seguintes. Roberta pediu mais detalhes sobre o projeto de educação financeira e deu a entender que estava apresentando o material para uma outra pessoa. “Tem apresentação da educação financeira?”, escreveu no dia 16 de maio de 2025. Após o Careca do INSS enviar um material explicativo, ela deu retorno sobre o assunto. “Meu amigo gostou da solução”, escreveu, sem explicar quem seria o amigo. As mensagens indicam novos encontros e tratativas comerciais entre eles nas semanas seguintes.

Porém, com o avanço das investigações da Polícia Federal, Roberta passou a evitar tratar desses assuntos por mensagens de WhatsApp.

Ainda assim, em 5 de setembro de 2025, o Careca do INSS deu novos detalhes a Roberta sobre suas investidas na área da Saúde e sugeriu buscar Padilha para reforçar o trabalho que ele estava fazendo para “abrir portas” com o objetivo de conseguir avanços para implantar um negócio de cannabis medicinal no Brasil.

“Vou adiantar aqui os assuntos. Sabes que Padilha é o cara de mil relacionamentos… Tenho um sócio amigo que abriu portas na Anvisa com Romilson (diretor) e com a chegada do Leandro ele já promoveu jantar na casa dele e esse time foi lá!!! Com isso ele abre portas e se coloca à disposição para me substituir e somar forças…”, escreveu a Roberta. Padilha foi procurado pela reportagem, mas não se manifestou.

Conforme revelou o Estadão, Roberta Luchsinger foi mais de 40 vezes a órgãos do governo federal sem que sua presença fosse registrada nas agendas oficiais de autoridades, entre 2023 e 2025. As visitas tiveram como destino, em 2023, o então ministro da Secretaria das Relações Institucionais Alexandre Padilha. Ela também teve várias entradas registradas no Ministério da Saúde, órgão de interesse do Careca do INSS, inclusive na companhia dele.

O diretor da Anvisa citado na mensagem é Rômison Mota, que deixou o cargo em dezembro do ano passado. A menção a ele chamou a atenção da PF, porque Rômison deu um voto favorável a uma consulta pública sobre a cannabis medicinal, tema de interesse direto do Careca do INSS. Procurado, ele afirmou que nunca tinha ouvido falar do Careca do INSS e disse que nunca se encontrou ou jantou com ninguém para tratar sobre esse tema.

Leia Também:  Leis municipais reforçam proteção à mulher em Aparecida

Além disso, o relatório da PF apontou que o outro mencionado foi Leandro Safatle, aprovado para o cargo de diretor-presidente da Anvisa em agosto de 2025. A PF encontrou no celular do Careca do INSS uma foto de Leandro em uma reunião no gabinete do senador Weverton Rocha (PDT-MA), parlamentar investigado sob suspeita de manter negócios e proximidade com o empresário. Procurado, Rocha não respondeu.

A assessoria do diretor-presidente da Anvisa disse que ele nunca teve encontros com o Careca do INSS, afirmou que apenas teve “encontro de natureza institucional” com Weverton Rocha e negou qualquer favorecimento indevido no tema da cannabis medicinal (leia ao final). Já o senador Weverton disse não ter relação com diretores da Anvisa. “Zero relação! E meu gabinete não é utilizado para encontros de terceiros”, afirmou.

Diante da demora de uma resposta de Roberta, o Careca do INSS insiste no assunto. “Amiga, sei que o momento que vivemos é delicado, porém as oportunidades estão aí para darmos andamento! O meu interlocutor está muito sintonizado para assumir o meu papel, assim como fizemos com o Cleber! Preciso do seu posicionamento para que o andamento decidido por nós fique pacificado os próximos passos!”, escreveu por mensagem, no dia 10 de setembro de 2025. Roberta respondeu minutos depois: “Amigo, tá difícil agora. Vou te ligar”.

No relatório sigiloso de análise sobre os diálogos, produzido no final do ano passado, a PF apontou que Roberta estava associada com o Careca do INSS em diversos negócios com o governo federal.

“Na análise das conversações entre ANTONIO CAMILO ANTUNES e ROBERTA LUCHSINGER, descortinou-se que ambos estão associados ‘de fato’ em diversos negócios junto ao Poder Público, tais como Cannabis, Iquego, Kits de Dengue, Educação Financeira e do Cleber na Data, nominados durante trocas de mensagens, dentre outros, referenciados de forma fragmentada, sendo a interlocutora responsável por ‘abrir portas’ em órgãos públicos”, diz o documento.

Leia a íntegra da manifestação do Ministério da Saúde:

Desde que assumiu o Ministério da Saúde, em março de 2025, o ministro Alexandre Padilha não recebeu a empresária citada e nunca tratou de nenhum desses temas.

O Ministério da Saúde não tem nem nunca teve contrato com a World Cannabis. O produto sequer está incorporado ao SUS.

Sobre a Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego), a proposta foi inscrita por meio de chamada pública em 2024 – quando Alexandre Padilha não era ministro – e reprovada em agosto do ano seguinte, antes mesmo do áudio em questão.

Leia a íntegra da manifestação do diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle:

O diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, nunca teve qualquer compromisso social ou profissional com o senhor Antônio Carlos Camilo Antunes.

Quanto ao senador Weverton Rocha, o encontro foi de natureza institucional, durante os diálogos que antecederam sua sabatina, como feito com os demais gabinetes do Senado e junto com os outros indicados à diretoria colegiada da Anvisa.

Em relação ao uso medicinal da cannabis, a Anvisa atuou para atender estritamente a decisão do STJ e não houve qualquer mudança nas regras de importação de produtos e medicamentos à base desse insumo, em vigor desde 2019. Assim, é descabida a tese de influência de qualquer empresa sobre esse processo.

Estadão Conteúdo

Compartilhe essa Notícia

publicidade

Expresão Local
Resumo sobre Privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a você a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você acha mais interessantes e úteis.

Saiba mais lendo nossa Política de Privacidade