Alcolumbre segura votação de PEC da maioridade penal após disputa entre Câmara e Senado

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Alcolumbre segura votação de PEC da maioridade penal após disputa entre Câmara e Senado

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ISADORA ALBERNAZ, CAROLINA LINHARES E AUGUSTO TENÓRIO
FOLHAPRESS

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), decidiu nesta quarta-feira (4) não colocar a PEC (proposta de emenda à Constituição) que reduz a maioridade penal para votação na Casa.

Segundo ele, a decisão foi tomada para atender a um pedido do chefe da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que ponderou que o tema já é discutido na Casa desde o primeiro semestre, inclusive com a criação de uma comissão especial.

“Vou aguardar a Câmara dos Deputados. Ele [Motta] fez um compromisso comigo que neste mês de novembro ele vai votar lá. E, quando chegar aqui, nós vamos votar aqui”, disse Alcolumbre, ressaltando a necessidade de manter uma boa relação com a Câmara.

Sob orientação de Lula (PT), o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, responsável pela articulação política com o Congresso, e a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), também procuraram Motta e Alcolumbre para pedir que a PEC seja analisada pela Câmara. O presidente foi informado sobre o desenrolar da articulação, afirmaram fontes à Folha de S.Paulo.

Após o Senado articular, nesta terça-feira (3), a possibilidade de votar a PEC já nesta quarta, deputados passaram a reclamar do que viram como atropelo da Casa vizinha. Alcolumbre já havia se comprometido a votar a PEC no Senado no dia seguinte à sua aprovação na Câmara.

Durante a sessão desta quarta, alguns senadores pediram a Alcolumbre que ele estabelecesse um prazo final para a votação na Câmara –1º de dezembro. Caso os deputados não votem até essa data, então os senadores poderiam deliberar a matéria primeiro.

Além da disputa entre as Casas, a definição de um texto de consenso também é um entrave para a tramitação acelerada da PEC. Além da proposta da Câmara, o Senado tem duas propostas sobre o tema –uma mais rígida proposta pelo PL e outra mais branda, do PT. As duas PECs do Senado tramitam de forma conjunta.

A corrida entre Câmara e Senado a respeito da maioridade teve origem com a aprovação da PEC da Segurança pelos senadores nesta terça-feira. O plenário decidiu separar a redução da maioridade do texto principal, dando origem às duas PECs próprias.

Naquele momento, Alcolumbre sinalizou dois caminhos: votar a redução no Senado logo após a votação da Câmara ou que houvesse um entendimento entre governo e oposição a respeito do texto, de forma que o Senado fizesse a deliberação já nos próximos dias.

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A iniciativa de que a votação ocorresse primeiro no Senado foi capitaneada pelo senador Eduardo Braga (MDB-AM), com aval de governistas e opositores. O líder do MDB reuniu 53 assinaturas e protocolou nesta quarta um requerimento que possibilita a votação diretamente no plenário. Alcolumbre afirmou, porém, que não pautaria a votação.

Braga aceitou a decisão, sugeriu a data limite e disse que sua intenção não era “atropelar a Câmara”. “Ao contrário, nós queremos contribuir”, afirmou.

Na terça-feira, a oposição tentou incluir a redução da maioridade na PEC da Segurança Pública, mas não teve sucesso. Alguns senadores disseram abrir mão da inclusão desde que o tema fosse votado em seguida no Senado de forma separada.

O líder do PL, Carlos Portinho (RJ), afirmou que não votar a maioridade no Senado nesta quarta representava uma quebra de acordo por parte do governo e um descumprimento de promessa de campanha por parte de Lula.

Uma série de senadores defendeu, no plenário, que a Casa tivesse protagonismo. Do outro lado, deputados que acompanham a tramitação da PEC afirmam, nos bastidores, que o Senado busca holofotes com um tema que está no foco da discussão pública.

Uma PEC eventualmente aprovada no Senado ainda teria que passar pela Câmara. Nesse caso, segundo o deputado Mendonça Filho (PL-PE), relator na comissão especial na Câmara que discute a maioridade, o projeto teria que tramitar em paralelo em outro grupo criado para analisá-lo, o que acabaria por atrasar a aprovação final.

A maioridade penal ganhou destaque durante o segundo turno das eleições e é um tema de ampla repercussão social. Pesquisa Datafolha divulgada em outubro mostra que 80% da população diz ser a favor da redução.

Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro (PL) se comprometeram com a redução, ainda que em termos distintos.

Mais cedo, o presidente da comissão especial, deputado Aluísio Mendes (Republicanos-MA), criticou, em entrevista a jornalistas, a tentativa do Senado de avançar com uma proposta sobre um tema já em discussão pelos deputados.

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“Conversei com vários senadores hoje que não há necessidade dessa pressa, desse afogadilho. Aqui na comissão nós vamos ter o poder de discutir esse tema o mês todo, com todos os segmentos da sociedade. Lá não tem discussão”, disse.

Mendonça Filho disse enxergar que havia “muita pressão” para caminhar com a proposta no Senado, mas evitou críticas. Ele declarou que a decisão de manter essa discussão na Câmara foi fruto de um acordo para retirar a maioridade penal da PEC da Segurança Pública, que foi aprovada na Casa em março.

O deputado afirmou ainda que pretende apresentar seu relatório entre a última semana de novembro e a primeira de dezembro e que vai conversar com colegas para chegar a um consenso sobre o texto.

“Há quem queira separar na classificação de crimes hediondos, outros querem abranger crimes praticados com violência, que é mais largo do que hediondo. O debate está aberto. Quero construir”, disse o relator.

No Senado, o PL propôs reduzir a maioridade para 14 anos para crimes hediondos e graves e para 16 para outros delitos em geral. Já o líder do PT na Casa, Camilo Santana (CE), foi a favor da redução para 16 anos só em casos hediondos.

Interlocutores ouvidos pela Folha de S.Paulo afirmam que Mendonça Filho é a favor de uma redução geral para 16 anos e não deve incluir em seu parecer a diminuição para 14 anos.

O aumento da pena para menores em casos graves poderia ser feito por meio de mudança no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). A ideia também é afastar a imagem de que a discussão da maioridade penal é radical.

Pelo regimento da Câmara, PECs precisam ser aprovadas pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e depois discutidas em comissão especial antes de irem ao plenário, onde são votadas por todos os 513 deputados em dois turnos. Para serem aprovadas, é necessário 308 votos favoráveis em cada etapa. No Senado, são necessários 49 votos.

A comissão especial para discutir a redução da maioridade penal no Brasil, hoje em 18 anos, foi criada por Motta em julho. O texto foi aprovado na CCJ no mês anterior.

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