Smart Sampa reclama de onda de violência inesperada para pedir reajuste a Nunes

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Smart Sampa reclama de onda de violência inesperada para pedir reajuste a Nunes

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LEANDRO MACHADO E ROGÉRIO PAGNAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O Consórcio Smart City SP, contratado pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) como uma das soluções para o combate à criminalidade, reclamou de uma “onda de violência inesperada e extraordinária” em São Paulo para justificar um pedido de reajuste no contrato com a prefeitura e o cancelamento de multas pelo mau funcionamento do sistema.

Formado por quatro empresas, o consórcio enviou à prefeitura em 17 de setembro deste ano um ofício se defendendo da aplicação de penalidades por falhas técnicas nos equipamentos, além de períodos em que as câmeras ficaram offline. As multas, aplicadas entre agosto e setembro, totalizam R$ 101 mil.

O programa Smart Sampa conta atualmente com 58 mil câmeras de monitoramento, parte delas com ferramentas de reconhecimento facial. Segundo o ofício do consórcio, foram registrados 3.131 casos de furtos e vandalismo contra os equipamentos entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, uma média de 4,6 ocorrências por dia.

Em seu recurso, o grupo ainda pediu um “reequilíbrio econômico-financeiro” do contrato. Um dos argumentos do grupo é uma “inesperada escalada de furtos e vandalismo” na cidade de São Paulo. Essa escalada, diz o Smart Sampa, está causando prejuízos financeiros à operação do sistema de monitoramento.

Na última segunda-feira (19), a gestão Nunes autorizou um reajuste de R$ 338,7 mil nos repasses mensais ao consórcio, totalizando R$ 11,1 milhões por mês.

Por ano, o Smart City SP recebe R$ 133,8 milhões da prefeitura para realizar o serviço. Desde o início do contrato, em 2024, o sistema já consumiu R$ 588,8 milhões dos cofres municipais.

Em nota à Folha, a gestão Nunes afirmou que o aditivo aplicado ao contrato “trata-se do reajuste anual determinado contratualmente com base na variação do IPC-FIPE (3,92%)”. Também afirmou que “penalidades, quando comprovadas, são aplicadas na forma e na proporção cabíveis”.

“É descabida qualquer afirmação de problemas na operação do serviço. O Smart Sampa funciona plenamente na cidade, tendo já contribuído para a captura de 3.628 foragidos, quase 7 mil prisões em flagrante e a localização de 284 pessoas desaparecidas”, disse a gestão Nunes.

Ataques aos equipamentos não estavam previstos, diz consórcio

O consórcio afirma no ofício que não pode ser responsabilizado pelos períodos em que as câmeras ficaram offline ou danificadas, porque os atuais índices de ataques aos equipamentos do Smart Sampa “não estavam previstos” na licitação da prefeitura.

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“Após o início da operação e a instalação das primeiras câmeras, o contratado (Smart Sampa) deparou-se com um cenário extraordinário e imprevisível: os índices de furtos e vandalismo existentes na cidade de São Paulo superaram em muito as projeções consideradas na proposta”, diz o consórcio.

No documento, o grupo classifica os ataques às câmeras como “contingências do mundo real”, “eventos de força maior” e “alteração extraordinária da realidade fática”.

Em parecer técnico sobre o caso, o procurador do município, Gian Paolo Gasparini, refutou os argumentos. As multas foram mantidas.

“A alegação de força maior fundada na ocorrência de furtos, vandalismo ou falhas de energia e telecomunicações não tem o condão de afastar a penalidade. Ao celebrar o ajuste, o consórcio assumiu a responsabilidade integral pela reposição e manutenção de equipamentos decorrentes de mau uso, problemas elétricos, de infraestrutura, roubo, furto, vandalismo, intempéries e quaisquer outros motivos”, escreveu Gasparini.

Para Rafael Alcadipani, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os episódios de vandalismo deveriam ter sido considerados na avaliação de risco do negócio. “Parece que a empresa parece não percebeu onde estava operando”, afirma Alcadipani.

Ele aponta ainda uma contradição: uma operação que pretende ajudar a reduzir a violência encontra dificuldades para funcionar justamente por causa dela. Para o professor, essa situação “evidencia a dimensão dos problemas estruturais de segurança na capital.”

Para Thallita Lima, coordenadora de pesquisa do CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), o consórcio está reconhecendo a “complexidade da atuação” do Smart Sampa como um plano de ação de combate à violência.

“Se a própria empresa e a infraestrutura não conseguem coibir o furto e o vandalismo, como ela vai resolver o problema de segurança pública de São Paulo? Esse reconhecimento gera um ruído na própria finalidade do Smart Sampa, um projeto que consome muito dinheiro público”, diz Lima.

A Folha procurou o Consórcio Smart City SP por mensagens, ligações e email, mas não obteve retorno. A reportagem também ligou e enviou mensagens para o proprietário de uma das empresas do consórcio, mas não foi atendida.

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Quatro empresas formam o Consórcio Smart City SP: CLD Construtora e Eletrônica, PK9 Tecnologia, Flama Serviços e Sentinelx Tecnologia.

A SSP (Secretaria da Segurança Pública) disse atuar em todas as regiões da cidade “com operações estratégicas orientadas por inteligência e análise criminal, além de investimentos em efetivo e equipamentos”.

“As iniciativas buscam prevenir e reprimir diferentes delitos, como os furtos, que recuaram 4,3% entre janeiro e agosto na comparação de 2026 com 2025, e casos de vandalismo. A pasta também reforça a importância do registro de boletins de ocorrência e de denúncias, que contribuem para identificar áreas críticas, orientar investigações e direcionar novas ações policiais”, acrescentou.

Falha de tecnologia

Nesta terça-feira (20), reportagem publicada pelo UOL revelou que informações restritas do programa ficaram disponíveis em um repositório público na internet durante cerca de 11 meses. Entre elas estavam credenciais e dados de agentes de segurança.

O portal relatou ter conseguido visualizar imagens da plataforma, que integra mais de 58 mil câmeras. Para comprovar o acesso em tempo real, o colunista Artur Rodrigues gravou e recuperou imagens diante de oito equipamentos ligados ao programa, na região central.

Em nota, a prefeitura afirma que “não houve nenhuma falha dos mecanismos de segurança da plataforma”.

O MP-SP (Ministério Público de São Paulo) registrou uma notícia de fato para analisar os indícios apresentados pela reportagem. Segundo a instituição, essa etapa ainda não corresponde à instauração de inquérito civil. Caberá ao promotor responsável avaliar se há elementos para abrir a investigação formal.
O contrato do consórcio com a prefeitura prevê uma multa de até 10% do valor total do contrato. Ou seja, a penalidade pode chegar a R$ 58,8 milhões por uma falha de segurança no sistema.

O documento assinado entre o município e o consórcio atribui à contratada a responsabilidade pela segurança dos sistemas e da infraestrutura.

Na campanha presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) também adotou o Smart Sampa como referência para propor a instalação de câmeras com reconhecimento facial pelo país.

Reportagem publicada neste domingo (18) apontou, porém, obstáculos à expansão, como diferenças de infraestrutura entre regiões, dificuldades de integração de dados e falta de comprovação científica de que esse tipo de sistema reduza a criminalidade.

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