Virada de Lula sobre Flávio é possível? Entenda o que dizem especialistas

virada-de-lula-sobre-flavio-e-possivel?-entenda-o-que-dizem-especialistas
Virada de Lula sobre Flávio é possível? Entenda o que dizem especialistas

publicidade

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chega ao segundo turno em um cenário eleitoral mais favorável e é apontado como franco favorito para vencer a Presidência da República, segundo especialistas em opinião pública ouvidos pelo Estadão. Para tentar reverter o resultado, o presidente Lula (PT) terá de recuperar os votos que perdeu em relação a 2022, mobilizar parte dos mais de 33 milhões de eleitores que não foram às urnas e conquistar apoiadores dos candidatos derrotados, dizem os analistas.

Para Flávio, o cenário se mostra bem menos desafiador. A avaliação entre os especialistas é de que ele tende a herdar a maior parte dos votos dos postulantes que ficaram pelo caminho no primeiro turno. A principal tarefa, agora, é evitar deslizes em debates e entrevistas, mostrar-se preparado para governar o País e não adotar posicionamentos radicais que possam afugentar eleitores moderados.

O histórico de eleições mostra que uma eventual virada de Lula no próximo dia 25 de outubro seria inédita, pois, desde 1989, sempre o candidato que terminou o primeiro turno na liderança também venceu a segunda rodada e foi eleito presidente.

Luciana Chong, diretora do Datafolha, considera que reverter o resultado será um “grande desafio” para Lula. Ela diz que a campanha petista terá de concentrar esforços na mobilização de eleitores que não compareceram às urnas no domingo. Como mostrou o Estadão, a taxa de abstenção registrada neste domingo foi a maior desde 1998.

“O segundo turno é mais difícil para o Lula. Não vou dizer categoricamente que não tem jeito de reverter, mas é um cenário complicado. A abstenção foi alta, e o Lula vai ter que investir em convencer o eleitor de ir votar no segundo turno. Em 2022, a abstenção foi menor no segundo do que no primeiro. Se o quadro se repetir, é melhor para ele, visto que o perfil de abstenção no Brasil tende a ser de eleitores de baixa renda, mais propensos a votar no PT – embora o Flávio também atraia uma fatia desse eleitorado”, afirma Luciana, para quem o presidente também precisará angariar o apoio de políticos nos Estados onde ficou sem palanque, como Minas Gerais e São Paulo.

Maurício Moura, economista e fundador do instituto de pesquisa Ideia, também enxerga a mobilização de eleitores que não foram às urnas como a única tábua de salvação do PT para tentar reeleger Lula. Ele cita a eleição de 2006 como referência de estratégia que o Partido dos Trabalhadores poderá adotar. Naquele ano, a expectativa era de que Lula vencesse o então tucano Geraldo Alckmin já no primeiro turno, mas a disputa terminou mais apertada do que o previsto, num banho de água fria para a campanha petista. Porém, no segundo turno, como lembra Moura, o PT intensificou a mobilização no Nordeste, especialmente em Pernambuco e no Ceará, e conseguiu ampliar a vantagem sobre Alckmin, derrotando o hoje vice-presidente da República com a maior votação do partido em uma eleição presidencial.

Leia Também:  Trump afirma que vai aumentar ‘Tarifa Mundial’ de 10% para 15%

“O caminho para virar é a abstenção”, sustenta Moura, explicando que o perfil daqueles que se abstêm no Brasil é justamente o que costuma votar na esquerda. “O PT sempre sofreu com isso. Mas é muito difícil fazer esse tipo de campanha de mobilização de eleitorado, principalmente porque não haverá mais disputas estaduais em boa parte do País.”

A maior fonte de inspiração para o PT, na opinião dele, deve ser a última eleição presidencial na Colômbia, onde o candidato governista, Iván Cepeda, chegou ao segundo turno em desvantagem e quase conseguiu reverter o resultado.

“A campanha do Cepeda, em vez de convencer eleitores de centro-direita ou buscar os votos que sobraram, foi atrás de quem ficou em casa”, diz o especialista. A estratégia não deu certo por muito pouco: como mostrou o Estadão, com 99,45% dos votos, Abelardo de la Espriella teve 49,66% dos votos e Cepeda, 48,70%.

Dificuldade de recuperar votos perdidos

Para Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas, diminuir a abstenção não será suficiente para Lula vencer. O presidente precisará conquistar votos de Flávio Bolsonaro.

“Se a abstenção diminuir, diminui um ponto, não quatro ou cinco. Não é suficiente. Para ganhar, Lula precisa tirar voto do Flávio. É difícil, mas não impossível”, afirma o especialista. Segundo ele, Lula pode até herdar parte dos votos dos candidatos derrotados no primeiro turno, como Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante), mas a maior parcela deverá migrar para Flávio, como já indicam as pesquisas. Esse movimento de voto útil, acrescenta, foi parcialmente antecipado no primeiro turno e contribuiu para que o senador terminasse a disputa na frente de Lula.

O diretor do Paraná Pesquisas também aponta o favoritismo de Flávio, mas avalia que o principal desafio do senador, agora, será mostrar que está preparado para governar o País. “As sabatinas daqui para frente serão sobre o que Flávio vai fazer se eleito. O grande desafio dele agora é este: provar que está preparado”, afirma.

Felipe Nunes, diretor da Quaest, concorda com Hidalgo que a redução da abstenção, sozinha, não seria suficiente para Lula buscar uma virada. Ele entende que o maior desafio do petista é reconquistar os 3,4 milhões de votos que perdeu em relação a 2022. Esse público, segundo ele, é formado essencialmente por dois segmentos: os “liberais sociais” e os “empreendedores individuais”.

Leia Também:  Governo cria grupo para debater direitos de entregadores por app

“São eleitores que esperavam um governo de frente ampla, com propostas reformistas, mas que se viu frustrado com as escolhas políticas do presidente. Para esses dois grupos, Lula se tornou um presidente mais à esquerda do que eles gostariam.”

Flávio, por sua vez, precisa atrair os eleitores que votaram em Cury, Caiado e Renan Santos, afirma Nunes “Para isso, precisa assumir compromissos democráticos, moderados, sem qualquer movimento que possa ser interpretado como radical ou que simbolize ruptura.”

‘Eu considero irreversível o resultado’, diz Alberto Carlos Almeida

O cientista político Alberto Carlos Almeida faz uma avaliação mais categórica sobre o resultado da eleição e diz não ver caminho para Lula virar a disputa.

“É aritmético. Você tem um candidato de governo, que é o Lula, e todos os demais são de oposição. Os outros candidatos somaram cerca de 8% dos votos. O Flávio vai ter mais da metade, no mínimo cinco, e deve alcançar 52% dos válidos. Lula vai a 48%, que é o teto dele”, diz. “Eu considero irreversível o resultado. Em todas as eleições para presidente, quem liderou no primeiro turno também chegou na frente no segundo. Isso não acontece por acaso. O segundo turno não é uma nova eleição; é a consolidação do primeiro.”

Almeida sustenta, desde o início do ano, que Lula caminhava para uma derrota e avalia que o presidente não agiu a tempo para melhorar a percepção sobre o governo, que, segundo ele, permaneceu em patamar abaixo do necessário para uma reeleição.

“Bolsonaro deu um aumento gigante do Bolsa Família seis meses antes da eleição. Isso ajudou muito. Avaliação de governo não melhora da noite para o dia. Provavelmente, o Lula e seu entorno, especulando, devem ter dito: “A eleição está ganha, o Flávio é um candidato ruim e é muito rejeitado”. Mas não é o candidato que importa, é o contexto. As pessoas vão procurar o candidato de oposição que representa a mudança no pleito.”

Autor de livros como “A cabeça do brasileiro” e “O voto do brasileiro”, Almeida também se distancia dos demais especialistas ao rejeitar a leitura de que o resultado das urnas deste domingo representa uma vitória do bolsonarismo ou uma “onda” de direita. Para ele, o que houve foi um movimento de alternância de poder.

“Não foi vitória do bolsonarismo ou onda de direita, foi alternância de poder com crescimento do partido de um candidato a presidente competitivo. O PL comeu cadeira dos partidos do Centrão, que são ideologicamente próximos dele”, afirma o especialista.

Estadão Conteúdo

Compartilhe essa Notícia

publicidade

Expresão Local

Resumo sobre Privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a você a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você acha mais interessantes e úteis.

Saiba mais lendo nossa Política de Privacidade