IGOR GIELOW
FOLHAPRESS
A França testou nesta terça-feira (6) seu novo míssil nuclear lançado de submarinos, o M51.3, naquilo que o presidente Emmanuel Macron chamou de “uma mensagem alta e clara para quem quiser ouvir” no caso, a Rússia de Vladimir Putin.
Na semana passada, o presidente russo e outras autoridades do país fizeram ameaças nucleares à Europa após o chanceler polonês sugerir que a aliança militar Otan deveria pressionar militarmente a Rússia no seu exclave europeu de Kaliningrado, no mar Báltico.
“Para ser livre, você precisa ser temido. E para ser temido, você precisa poderoso”, disse Macron em completo modo Kim Jong-un, o ditador norte-coreano que propagandeia sua presença nos lançamentos de mísseis de seu país.
O francês assistiu ao disparo, que foi feito pelo submarino de propulsão nuclear Le Vigilant, a partir da fragata Auvergne, no Atlântico sobre a costa da Bretanha. O novo míssil entrou em operação em outubro do ano passado, e esse foi seu primeiro teste de verificação desarmado.
Segundo dados de apresentações do fabricante Ariane e da Marinha francesa, o M51.3 pode voar 10 mil km carregando até seis ogivas nucleares TNO-2, cada uma com talvez 150 quilotons, ou dez vezes a potência da bomba de Hiroshima.
Os quatro submarinos estratégicos da França são o esteio de sua força nuclear, carregando estimadas 240 das 290 ogivas operacionais do país. As restantes estão em mísseis de cruzeiro lançados do ar por caças Rafale, e há ainda 80 bombas aposentadas, mas não desmontadas.
O arsenal é o quarto maior do mundo, atrás dos líderes incontestáveis Rússia e Estados Unidos e da ascendente China, que tem 620 ogivas segundo a referencial Federação dos Cientistas Americanos.
A França tomou para si a tarefa de enfrentar retoricamente a Rússia no campo nuclear, um movimento que coincide com a condição de fragilidade doméstica de Macron, que encerrará seu segundo e último mandato no próximo ano e vê rivais à direita e à esquerda em alta.
O país integra a Otan, mas tem controle separado de suas armas nucleares, que está sendo integrado ao do Reino Unido, o outro membro europeu do grupo que possui tal capacidade. “Juntos somos mais fortes”, afirmou Macron, que gasta R$ 30 bilhões anuais para manter seus mísseis.
Neste ano, ele lançou uma iniciativa para dividir suas capacidades com países europeus, algo que já atraiu dez nações, inclusive algumas na linha de frente com os russos, como a Finlândia. O objetivo do programa é fazer exercícios conjuntos e posicionar, se necessário, caças Rafale armados nos parceiros.
A Rússia reagiu à proposta francesa, afirmando que ela só aumenta os riscos de confronto. De tempos em tempos, Putin faz seus testes de mísseis como forma sinalização política também. Nesta terça, o Kremlin voltou a advertir a Lituânia por sua disposição de retirar da Constituição a proibição de posicionamento de armas nucleares em seu território.
Os lituanos ainda não integram o escudo nuclear francês, mas são membros da Otan, o que permitirá quando a legislação mudar o posicionamento de tais armas hoje, a tarefa é dos americanos, que têm cerca de cem ogivas táticas, de menor potência, em seis bases europeias.
A posição dos Estados Unidos é a base da iniciativa da França. O desengajamento de Donald Trump da defesa da Europa é uma das bases de sua política externa, e levou a uma corrida armamentista no continente, que desde a Guerra Fria dependia de Washington para se defender.
Vai continuar sendo assim na prática por anos, mas a vontade política do americano de apoiar os aliados é nula, o que disparou o alarme numa região com uma guerra em suas fronteiras desde que Putin invadiu a Ucrânia, em 2022.
O russo descartou diversas vezes, a mais recente na semana passada, a intenção de atacar a Otan não menos porque isso levaria à Terceira Guerra Mundial, com quase inevitável recurso a armas nucleares.
Mas os europeus não querem pagar para ver com a dúvida acerca do apoio dos EUA.
Se o arsenal de Putin é muito maior, com mais de 5.000 ogivas totais e quase 1.800 prontas para uso, basta um míssil dos rivais para obliterar uma grande cidade russa.
NAVIO É AFUNDADO; KIEV INSTALA REDES ANTIDRONE EM PONTES
Enquanto isso, o conflito na Ucrânia segue em alta intensidade, com bombardeiros de lado a lado. No mar Negro, um navio com grãos ucranianos afundou junto à costa da Bulgária após um ataque de drones, cuja autoria ainda não está definida. A tripulação ainda não foi encontrada.
Na véspera, um drone atribuído à Rússia havia atingido outro navio também carregando grãos de Kiev, este próximo da Romênia. Ao menos duas pessoas morreram no incidente.
Na capital ucraniana, as autoridades locais começaram a instalar redes antidrone em pontes da cidade. Desde o fim da semana passada, Moscou passou a atacar diretamente essas estruturas, alegando que elas servem para o deslocamento de material militar do oeste do país para as linhas de frente no leste e no sul invadidos.
Ao menos 3 das 8 principais pontes da cidade sobre o rio Dniepr já foram atingidas. Uma das principais, a Norte, foi atacada no domingo (4) e nesta terça (6), tendo o tráfego interrompido e causando caos no trânsito da cidade pela manhã.
O problema do emprego de redes, que são onipresentes nas estradas dos dois lados da linha de frente, é que elas têm mais dificuldade de proteger contra modelos mais pesados e velozes de drones, como os que a Rússia tem usado contra Kiev.
Além disso, elas dificilmente protegem contra mísseis, como o Banderol usando contra a ponte Norte no domingo, enquanto o premiê alemão Friedrich Merz fazia uma visita surpresa à cidade.






