ANDRÉ FLEURY MORAES E CLAUDINEI QUEIROZ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A investigação da Polícia Civil e do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) contra a infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no transporte coletivo paulistano atinge todas as concessionárias à frente das linhas de distribuição, voltadas ao atendimento nos bairros da capital paulista.
A informação consta da representação que deu origem à operação desta quinta-feira (17) que tem como alvo de um mandado de prisão o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Milton Leite (União Brasil). Outras 15 pessoas foram presas, e 18 endereços sofreram busca e apreensão.
As únicas linhas locais sobre as quais não há suspeita de elo com o PCC são as antigas rotas da Transwolff, que hoje estão sob responsabilidade direta da estatal SPTrans após o rompimento do contrato com a prefeitura. A medida se deu exatamente devido às suspeitas de ligação da empresa com a facção.
O sistema de transporte coletivo em São Paulo é dividido em três lotes. O primeiro exige veículos grandes e faz ligações entre grandes eixos da cidade. O segundo, chamado de articulação regional, abrange ônibus de médio porte e liga bairros a corredores. Já o terceiro, menor, abarca somente linhas de bairro.
É neste último que se encontram as empresas suspeitas de manter relações com a facção.
A Prefeitura de São Paulo disse em nota ter criado um grupo de trabalho para analisar os elementos da investigação e que “está analisando rigorosamente os contratos, documentos e eventuais vínculos com os fatos investigados na operação”. Afirmou também que “não compactua com qualquer irregularidade e seguirá colaborando integralmente com as autoridades competentes”.
Ao todo, dez concessionárias operam as linhas do terceiro lote. A representação que deu origem à operação desta quinta fala ainda em outra, a UpBus, mas o contrato dela não está mais vigente.
A empresa não atendeu aos telefonemas realizados na tarde desta quinta-feira.
Segundo a polícia e o MP-SP, ela e as demais empresas que operam as linhas locais guardam relação com o PCC em algum grau.
No caso da antiga Transcap, hoje chamada Auto Bless, o Ministério Público diz que o elo se dá por meio de um sócio preso preventivamente acusado de extorsão e vínculos com a facção criminosa.
Procurada por telefone na tarde desta quinta, a empresa pediu para que a reportagem entrasse em contato nesta sexta (18).
A Transunião, por sua vez, foi alvo de uma operação no primeiro semestre deste ano que apurava os crimes de extorsão, lavagem de dinheiro e o assassinato de seu ex-diretor Adauto Soares Jorge.
A operação contra a Transunião culminou na prisão do vereador Senival Moura (PT), que nega irregularidades.
A reportagem ligou para a Transunião nesta quinta. Uma telefonista disse à reportagem para ligar num outro número de telefone, que não atendeu.
A MoveBus, diz a Polícia Civil, foi arrolada em inquéritos da Polícia Federal por manter elos com a irmã de Roberto Soriano, o “Tiriça”, membro da cúpula do PCC.
O caso mais detalhado pela investigação é o da A2 Transportes. Segundo as investigações, o proprietário da companhia, Paulo Sirqueira Korek Farias, mantinha um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC dentro da empresa. A polícia cita também áudios nos quais representantes da companhia combinam pagamentos ilícitos.
Tanto a A2 como seu proprietário negam irregularidades. “A A2 Transportes nunca teve envolvimento com o PCC e jamais fez lavagem de dinheiro. Nossos recursos são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços que prestamos”, afirmou Paulo Korek.
Sem dar mais detalhes, ele disse que a operação tem “forte componente político”.
A gestão Nunes, enquanto isso, afirmou que “decidiu pelo afastamento imediato, em até 24 horas, dos integrantes da diretoria da empresa A2 Transportes citados na operação”. A administração não descarta decretar intervenção sobre a empresa.
A operação cita também as suspeitas envolvendo a Transwolff, cujo verdadeiro dono segundo a polícia é o Milton Leite.
A assessoria de imprensa da Transwolff disse que o ex-vereador “nunca teve qualquer participação societária na Transwolff, nunca participou da gestão ou ‘deu ordens’ na empresa”. Ainda segundo ela, “tal afirmação está completamente equivocada e dissociada da realidade”.
Em outros casos, por sua vez, a suposta relação entre as empresas e a facção criminosa é pouco detalhada nos documentos aos quais a reportagem teve acesso.
Isso acontece para a Alfa Rodobus, que assumiu as linhas da UpBus. Para a polícia, a sucessão da UpBus pela Alfa “demonstra a influência e o grau de comprometimento e contaminação do setor de transportes com a presença do crime organizado”.
Procurada na tarde desta quinta pela reportagem, a Alfa Rodobus disse que não poderia se manifestar porque todos os seus funcionários estariam em treinamento.
Há também menções à Nortebuss em razão do passado, quando se chamava Transcooper. A polícia cita relações da empresa com o PCC em meados de 2015. Não há mais detalhes nos documentos aos quais a reportagem teve acesso.
LISTA DE EMPRESAS SOB SUSPEITAS DE ELO COM O PCC, SEGUNDO O MINISTÉRIO PÚBLICO
Transwolff Transportes
Empresa nega irregularidades e diz que Milton Leite nunca exerceu posição de comando na companhia.
Qualibus Transportes
Atual UpBus, não atendeu aos telefonemas feitos pela reportagem na tarde desta quinta-feira.
Transunião Transportes
A reportagem ligou para a Transunião nesta quinta. Uma telefonista disse à reportagem para ligar num outro número de telefone, que não atendeu.
Alfa Rodobus Transportes
Procurada na tarde desta quinta pela reportagem, a Alfa Rodobus disse que não poderia se manifestar porque todos os seus funcionários estariam em treinamento.
Viação Transcap Transportes
Atual Auto Bless foi procurada por telefone na tarde desta quinta e pediu para que a reportagem entrasse em contato nesta sexta (18).
A2 Transportes
Tanto a A2 como seu proprietário negam irregularidades. “A A2 Transportes nunca teve envolvimento com o PCC e jamais fez lavagem de dinheiro. Nossos recursos são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços que prestamos”, afirmou Paulo Korek. Sem dar mais detalhes, ele disse acreditar que a operação tem “forte componente político”.
Move Bus Transportes
Procurada na tarde desta quinta-feira (17) por telefone, um porteiro disse que todos os funcionários já haviam ido embora. Ele não informou outros telefones.
Pessego Transportes
Reportagem encaminhou mensagem por WhatsApp. Empresa acusou o recebimento, mas não deu retorno ao pedido.
Allianz Transportes
Atual Allibus foi procurada por meio de email enviado ao departamento jurídico da empresa, mas não houve resposta até a publicação deste texto.
Norte Bus Transportes
Disse que toda a diretoria está em reunião e que não se pronunciaria nesta quinta.
Spencer Transportes
Anotou o telefone da reportagem e disse que daria retorno, mas não se pronunciou
Imperial
Reportagem não conseguiu contato com a empresa.







