“Esse tá fazendo falta!” Com esse slogan, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos) tenta convencer o eleitor mineiro a lhe devolver uma cadeira no Congresso, quatro anos depois de fracassar nas urnas em São Paulo e dez anos após o papel central que desempenhou no processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT).
Dilma sofreu impeachment em 31 de agosto de 2016 por causa das “pedaladas fiscais”, prática revelada pelo Estadão, sob a acusação de crime de responsabilidade. Apesar disso, a petista manteve os direitos políticos.
Cunha, na época no MDB, foi responsável por uma das mais icônicas frases do período, “que Deus tenha misericórdia desta nação”, ao votar sim ao impeachment em 17 de abril de 2016, um domingo. O ex-deputado federal também teve uma das mais rápidas derrocadas da época: 18 dias após a Câmara autorizar a abertura do processo que levou à destituição de Dilma por 367 votos a 137, ele teve o mandato suspenso pelo Supremo Tribunal Federal – a Corte entendeu que o parlamentar estava tentando interferir nas investigações contra si.
O todo poderoso presidente da Câmara acabaria sendo cassado pelos colegas deputados em 12 de setembro, 13 dias depois da votação final do impeachment de Dilma no Senado Federal, que ocorreu em 31 de agosto. Cunha perdeu o cargo acusado de mentir na Comissão Parlamentar de Inquérito da Petrobras, por dizer que não tinha contas no exterior. A expressão que deu título a seu livro, “Tchau, querida”, acabou sendo usada contra ele em sua cassação.
Cunha ficou preso de outubro de 2016 a abril de 2021. Em 2022, no PTB, concorreu a deputado federal por São Paulo. O ex-presidente da Câmara declarou voto em Jair Bolsonaro (PL) tentando atrair o eleitor bolsonarista. Não deu certo. Ele recebeu 5.044 votos – em 2014, conquistou 232.708 votos e foi o terceiro mais votado do Rio de Janeiro, sua base eleitoral histórica.
Agora, Cunha trocou de novo o domicílio eleitoral, desta vez para Minas Gerais, para tentar mudar sua sorte. Na eleição de 2026, conta com o apoio explícito de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o filho mais velho de Jair Bolsonaro diz que Cunha é uma pessoa “que tem um papel importante na história do nosso Brasil”.
“Foi aquele que abriu os olhos da população brasileira e derrubou a Dilma, talvez a pior presidente que este País tenha tido na sua história e que, graças a Deus, o Brasil reagiu a tempo”, diz Flávio no vídeo.
Uma das autoras do pedido de impeachment, a vereadora de São Paulo Janaina Paschoal (PP), professora de direito penal na USP, tenta uma cadeira na Câmara neste ano. Ela é categórica e rejeita que o processo concluído dez anos atrás tenha sido político. “Tem fundamento jurídico, sim, fundamento jurídico sobra”, diz ao Estadão.
Em 2018, ela foi a deputada estadual mais votada do País, ao obter 2.060.786 votos. No mesmo ano, Jair Bolsonaro foi eleito presidente. Para Janaina, o processo político pós-impeachment poderia ter sido melhor. “Se nós tivéssemos conseguido colocar no poder uma direita menos barulhenta, mais racional, teria sido melhor”, diz. A vereadora, porém, avalia que o maior retrocesso desde então não veio da política, e sim do Judiciário, que passou a dominar.
A advogada afirmou que não tinha pretensões políticas antes de concorrer em 2018. “Eu vou ser bem honesta com você, não teve assim uma construção racional. Sabe quando a vida vai te levando? A vida vai te levando”, diz. Ela afirma que o senador Major Olímpio (morto em 2021) sugeriu que saísse a governadora. “Depois o Bolsonaro chamando para ser vice. E aí eu falei que não ia concorrer a nada”, conta. Segundo ela, a decisão foi tomada só após uma “situação bem pesada” na USP.
“É sempre assim, sabe? Uma coisa de última hora, um conflito que me joga”, continua. “Às vezes, o pessoal dos partidos pergunta qual é o seu plano de carreira política? Não tem. Eu vou sentindo, eu sou muito mística, às vezes eu tenho um sonho que eu acho que é um sinal de que eu tenho que ir adiante”, diz.
Em 2022, Janaina concorreu a senadora por São Paulo. Recebeu 447.550 votos. Dois anos depois, na disputa a vereadora de São Paulo, obteve 48.893 votos. Ao longo do mandato de Bolsonaro, a advogada divergiu do ex-presidente em alguns momentos, o que rendeu ataques de apoiadores dele. Ela defende o posicionamento. “Eu não entrei na política para ter cargo. Eu entrei na política para poder falar o que eu penso.”
Ao lado de Janaina e do advogado Hélio Bicudo, morto em 2018, o jurista Miguel Reale Júnior assinou o pedido de impeachment de Dilma. Dez anos depois, defende o processo. Ele lembra que, entre 2015 e 2016, o PIB brasileiro caiu 7% por causa da crise fiscal e da desconfiança dos agentes econômicos por causa das “pedaladas fiscais”. “Foi a maior recessão da história brasileira com graves sofrimentos da população mais pobre”, argumenta o ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso.
Para ele, o impeachment teve a “consequência benéfica” de extinguir a crise fiscal e paralisar a recessão, “grande malefício para nosso País”. “No plano político, poderia ter sido muito melhor se não tivesse o governo Temer se perdido em acusações de corrupção”, complementa, em referência às denúncias apresentadas contra o presidente, que tomou posse após a destituição de Dilma – o emedebista não foi condenado em nenhuma ação.
Em 2017, o jurista se desfiliou do PSDB após o partido decidir permanecer no governo Temer. Ele argumentou que a legenda perdeu o discurso. Também se tornou um crítico contumaz de Bolsonaro – em 2021, disse que o ex-presidente tinha cometido crime de responsabilidade no enfrentamento da pandemia de covid-19. Hoje, mantém o escritório Miguel Reale Junior Advogados, especializado em direito penal empresarial.
Outro personagem de destaque no impeachment foi o deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP), um dos organizadores de protestos do Movimento Brasil Livre (MBL) que pressionavam pela saída de Dilma. O grupo chegou a apresentar, em 2015, um pedido próprio de destituição da petista.
Kataguiri se elegeu deputado federal em 2018 com 465.310 votos. Quatro anos depois, sua votação caiu para 295.460 votos. No ano passado, viu sair do papel o Missão, partido pelo qual concorre a um terceiro mandato na Câmara dos Deputados.
Ele afirma que a decisão de disputar eleição em 2018 foi tomada a partir da constatação, na época do impeachment, de que não se sentia representado por nenhum político. “Nossos primeiros quadros, incluindo eu, disputamos pelo DEM por causa da proximidade do impeachment. O comitê do impeachment era do DEM, foi o primeiro partido a apoiar, o PSDB só veio depois. Então, foi uma aproximação natural”, diz.
Kataguiri permaneceu no União Brasil (fusão do DEM com o PSL) até o TSE aprovar, em 2025, o registro do Missão. Ele afirma que o partido não busca o eleitorado que está decepcionado com a polarização. “A gente quer o eleitor que quer que nós ocupemos o polo da direita”, afirma.
O deputado também diz que não quer arriscar qual será sua votação em 2026. “Mas eu acredito que, de todo modo, nós vamos eleger muitos deputados pelo País. E se minha votação for menor, vai ser porque as pessoas votaram em outros candidatos da chapa da Missão, mas não porque nós perdemos força”, argumenta.
Presidente da comissão especial de impeachment no Senado, o ex-senador Raimundo Lira (hoje no PSD) avalia, dez anos depois, que o crime de responsabilidade foi comprovado ao longo dos trabalhos do colegiado, mas faz ressalvas. “Houve um afastamento da presidente. Havia fundamento para o afastamento? Havia um fundamento. Mas não era um fundamento muito rigoroso, entendeu?”, diz. Ainda assim, afirma que não mudaria seu voto favorável.
Ele também afirma que o custo pessoal de presidir a comissão foi muito elevado. Ele não concorre nestas eleições. “Eu acordava todo dia às cinco horas da manhã para preparar o aspecto jurídico da questão”, conta. “Foi um trabalho muito desgastante e eu, logicamente, não aceitaria novamente. Tive também uma ajuda muito boa do meu companheiro, o senador Antônio Anastasia, que é uma pessoa extraordinária, gente muito boa.”
Anastasia, que elaborou um relatório favorável ao processo de impeachment de Dilma, foi escolhido em 2021 para ocupar uma vaga de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), o mesmo que rejeitou as contas de Dilma em 2014.
Presidente do processo de impeachment, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski afirmou, em 2016, que o episódio era um “tropeço da democracia”. Em janeiro de 2024, ele se tornou ministro da Justiça no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cargo que ocupou até janeiro de 2026. Se dedica hoje a projetos acadêmicos e atividades jurídicas.
Outros personagens da época se mantiveram na vida política desde o impeachment. Presidente do Senado na época, Renan Calheiros (MDB) disputa a reeleição como senador por Alagoas. Em 2010, ele havia recebido 840.809 votos na eleição. Oito anos depois, obteve 621.562 votos. Atualmente, concorre com seu principal adversário político no Estado, o deputado federal Arthur Lira (PP).
Um dos principais adversários de Dilma, o deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG) é candidato ao Senado por Minas Gerais. Depois de afirmar que não disputaria nada em 2026, reavaliou a decisão e anunciou uma “mudança de rota” já com a campanha em andamento. Em 2010, recebeu 7.565.377 e se elegeu senador. Oito anos depois, teve 106.702 para deputado federal por Minas Gerais. Em 2022, essa votação caiu para 85.341.
Já o ex-juiz federal Sérgio Moro, responsável, na 13ª Vara Federal de Curitiba, pelos processos da Operação Lava Jato, entrou para a vida política em 2018, após a eleição de Bolsonaro. Ele se tornou ministro da Justiça no governo do ex-presidente e deixou o cargo em abril de 2020, acusando Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal. Ele voltou a apoiar a família Bolsonaro posteriormente. Em 2022, se elegeu senador pelo Paraná com 1.953.159 votos. Neste ano, disputa o governo do Estado.
Tropa de choque de Dilma diz que houve ‘golpe’
De “show de horrores” a “terremoto político”, a tropa de choque de defesa de Dilma é uníssona ao dizer que o impeachment contra a ex-presidente representou, na realidade, um “golpe parlamentar”. A análise é a de que a destituição da petista propiciou a ascensão do bolsonarismo e abriu espaço para o Centrão concentrar mais poder, capturando mais fatias do Orçamento da União.
Depois do impeachment, Dilma concorreu ao Senado por Minas Gerais em 2018, mas recebeu 2.709.223 votos e terminou a eleição em quarto lugar. Em 2023, foi indicada por Lula para presidir o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o chamado “banco do Brics”.
A ex-presidente foi procurada pelo Estadão, mas optou por não conceder entrevista por estar com a “agenda apertada”, segundo a assessoria de imprensa. Ela recomendou que a reportagem procurasse o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo para falar sobre o tema.
Dez anos depois, Cardozo – que deixou o cargo para defendê-la como advogado-geral da União e, após o afastamento de Dilma, tornou-se advogado particular dela – diz que os fundamentos jurídicos usados para embasar o processo de impeachment, ou seja, as “pedaladas fiscais”, não constituíram crime de responsabilidade.
“O impeachment de Dilma Rousseff não tinha propriamente uma causa que pudesse legitimá-lo. Os crimes de responsabilidade apontados não ocorreram, foram pretextos jurídicos para tirar Dilma do poder. De certa forma, isso chega a ser confessado na fala final do impeachment, pela Janaína Paschoal: ‘Dilma Rousseff não está sendo afastada por esses fatos, por esses crimes de responsabilidade, mas pelo conjunto da obra’. O conjunto da obra você resolve na urna”, afirma. Cardozo abandonou a vida política e atua como advogado.
Na linha de frente, estava o então senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que chegou a protocolar uma resolução em que pede a devolução simbólica do mandato à Dilma em 2023. “Aquilo que houve há dez anos abriu uma fissura enorme na nossa democracia. Até hoje, a gente não conseguiu consertar”, diz.
Após o impeachment, Lindbergh não conseguiu se reeleger em 2018. Tornou-se vereador do Rio de Janeiro em 2020 e voltou à Câmara em 2022, de onde havia saído 17 anos antes. O parlamentar disse que foram anos difíceis, mas que não guarda arrependimentos, inclusive do período fora da política.
“O que fez a gente virar o jogo e eleger o Lula depois foi ter gente com coragem para remar contra a maré. Nunca vou abrir mão do que eu acredito. Se tem uma coisa de que eu tenho muito orgulho, foi de ter defendido Dilma naquele período mais difícil”, resume o vice-líder da maioria na Câmara, que almeja a reeleição.
Já o ex-deputado federal Jean Wyllys (PT-SP) protagonizou um dos episódio mais lembrados do processo de impeachment: a cusparada em Bolsonaro na votação na Câmara após ouvir ofensas homofóbicas do hoje ex-presidente. Em resposta, o agora deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) cuspiu de volta.
Wyllys retornava do púlpito onde votou contra o impeachment naquele momento. Antes dele, o ex-presidente havia dedicado o próprio voto ao coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015, que conduziu sessões de tortura contra Dilma na ditadura militar.
“Fui tomado por uma indignação tão profunda que, realmente, eu cuspi”, diz o político, que explicou por que não repetiria a cena. “Talvez naquelas mesmas circunstâncias e temperatura e pressão, eu faria, mas não é um gesto que vou repetir a vida inteira. Eu só me orgulho daquilo porque realmente foi o único gesto de dignidade naquela noite.”
À época filiado ao PSOL do Rio de Janeiro, Wyllys saiu do Brasil em 2019 após uma escalada de ataques e de violência que o levaram a abrir mão do mandato. O ex-parlamentar considera que a defesa à ex-presidente lhe custou um “preço altíssimo”, mas, ainda assim, diz que não se arrepende. O petista retornou ao País em 2023 e, três anos depois, enfrenta as urnas novamente em busca de voltar, também, à Câmara.
“Paguei um preço altíssimo: ter deixado o meu País, a minha família, o mandato para o qual fui eleito e ter que recomeçar a vida no exterior. Não contei com ajuda do partido, nem do PSOL nem do PT, mas de pessoas intelectuais que me respeitavam e me ajudaram lá fora”, relembra Wyllys. “Não me arrependo, porque eu sou movido por princípios, porque fiz a coisa certa e porque a história só está provando que eu tinha razão”, completa, em referência ao que considera ter sido um processo ilegítimo.
Assim como Wyllys, o deputado federal Glauber Braga (PSol-RJ) afirma que “faria tudo de novo”. O parlamentar chamou Cunha de “gângster” ao se posicionar na tribuna e, na contramão a Bolsonaro, dedicou o voto ao casal de militantes Luís Carlos Prestes, líder do PCB, e Olga Benário, deportada grávida para a Alemanha nazista em 1936.
“Quando você se posiciona publicamente, assume os ônus, as raivas, as frustrações daqueles que se associaram a uma posição diferente. Inclusive, as perseguições que se seguem no espaço institucional não começam do nada”, destacou Braga, que disputa a reeleição.
Estadão Conteúdo








