Diretor do BC relata à PF ambiente hostil e receio de vazamentos sobre liquidação do Master

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Diretor do BC relata à PF ambiente hostil e receio de vazamentos sobre liquidação do Master

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JOSÉ MARQUES E FELIPE MACHADO MAIA
BRASÍLIA, DF E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou à Polícia Federal que havia um ambiente hostil no órgão durante o processo de decisão sobre o futuro do Banco Master, com intensos vazamentos de informações. Por isso, manteve em sigilo a decisão de liquidar a instituição financeira de Daniel Vorcaro, em novembro do ano passado.

Aquino disse aos investigadores que escondeu de Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária do BC, e de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, a decisão pela liquidação do banco.

Os dois servidores são investigados por receber pagamentos de Vorcaro e já afirmaram, por meio de suas defesas, que não adotaram medidas de favorecimento ao ex-banqueiro.

No depoimento, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmado pela reportagem, o diretor narrou como foi o dia 17 de novembro, véspera do anúncio do desligamento do Master do Sistema Financeiro Nacional. Segundo o relato, ele e Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, não confiavam em ninguém naquele momento e já haviam tomado a decisão pela liquidação.

Aquino afirmou que Vorcaro vinha pedindo uma reunião, mas a ideia era recebê-lo apenas no dia 19, quarta-feira. No entanto, disse, Santana e Paulo Sérgio atuaram como intermediários e insistiram muito para que o ex-banqueiro fosse recebido naquela segunda-feira (17).

Em reunião realizada por volta das 12h30 daquele dia via teleconferência, Vorcaro apresentou a Aquino e aos dois servidores a proposta de venda do Master para a Fictor por R$ 3 bilhões, em conjunto com investidores árabes que nunca foram revelados.

“Que Vorcaro insistia em perguntar ao depoente [Aquino] qual era sua opinião e o que achava da proposta, como se buscasse uma manifestação favorável”, diz trecho do depoimento de Ailton.

A transação, horas depois, seria divulgada para a imprensa, porém não se concretizou. Vorcaro foi preso na noite daquele dia, quando tentava embarcar em um jatinho no aeroporto de Guarulhos. A PF suspeita de que a viagem aos Emirados Árabes seria apenas uma tentativa de fuga, o que ele nega.

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No depoimento, o diretor do BC afirma que se manteve neutro durante a reunião e não demonstrou comprometimento com a operação com a Fictor, enquanto Vorcaro demonstrava urgência e queria entregar a documentação, pois iria viajar. Ailton afirma que já havia tomado a decisão por votar pela liquidação do Master.

Naquele dia, como revelou a Folha de S. Paulo, também houve correria na tentativa de vender um apartamento de R$ 60 milhões em São Paulo, em negociação também não concretizada.

Questionado pelos investigadores se achava que o ex-banqueiro já sabia da liquidação, declarou “expressamente que está conjecturando, sendo leviano ao fazê-lo, mas que o comportamento do banqueiro naquela ocasião gerava esse sentimento, sem que haja como afirmar isso com certeza”.

Naquele dia, Ailton conta que Galípolo convocou uma reunião com a diretoria do BC, e a liquidação do Master foi aprovada.

A decisão de guardar segredo internamente sobre a liquidação do Master foi tratada como atípica pelo diretor do BC. Segundo ele disse à PF, em condições normais de um processo de liquidação bancária, o coordenador, o chefe de divisão, o adjunto e o chefe de departamento são previamente informados para que todos se preparem. Mas, no caso do Banco Master, somente ele, o presidente do BC, o procurador e o responsável pela execução da liquidação no respectivo departamento foram informados.

A conduta dos ex-gestores do BC está sendo analisada pela CGU ( Controladoria-Geral da União) desde março em um PAD (Processo Administrativo Disciplinar) que pode levar à expulsão dos servidores do quadro funcional da autarquia se forem considerados culpados. Este processo fez uma sindicância patrimonial dos dois.

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Em paralelo, tramita no BC um Processo Administrativo Sancionador, referente às carteiras cedidas ao BRB. A Polícia Federal investiga se ambos foram favorecidos financeiramente em troca de informações e auxílio aos interesses do Master dentro do BC.

Paulo Sérgio atuou como diretor de Fiscalização do BC entre 2017 e 2023. Meses depois, assumiu o posto de chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária -liderado por Belline de 2019 a 2026.

Funcionários de carreira da instituição, com quase três décadas de casa, eles contavam com a confiança dos colegas. Como mostrou a Folha de S. Paulo, o indício de envolvimento da dupla no caso Master gerou um clima de abatimento e perplexidade entre os funcionários.

Segundo investigações, os servidores do BC são suspeitos de terem atuado como consultores informais de Vorcaro em troca de vantagens indevidas. A evolução patrimonial dos ex-gestores foi o gatilho para a abertura de uma investigação interna no BC.

A sindicância patrimonial concluiu que Paulo Sérgio simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para uma empresa controlada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, para ocultar recebimento de propina. A defesa dele afirma que a venda da propriedade foi efetiva e não teve finalidade de mascarar qualquer vantagem indevida.

Outra conclusão da investigação do BC foi que Belline simulou dois contratos, no total de R$ 4 milhões, com um advogado ligado ao Master para esconder propina recebida. Segundo sua defesa, o servidor não adotou medidas que favorecessem o conglomerado.

O Banco Central decretou a liquidação do Master em novembro do ano passado. Hoje, os bens estão sob controle do liquidante designado pela autoridade. Os custos da quebra do banco superam os R$ 57 bilhões até o momento.

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