Senado aprova corte de benefícios fiscais e livra governo de cortar R$ 20 bi no Orçamento

senado-aprova-corte-de-beneficios-fiscais-e-livra-governo-de-cortar-r$-20-bi-no-orcamento
Senado aprova corte de benefícios fiscais e livra governo de cortar R$ 20 bi no Orçamento

publicidade

RAPHAEL DI CUNTO E CAIO SPECHOTO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

O Senado aprovou nesta quarta-feira (17) projeto de lei que reduz em 10% parte dos benefícios fiscais das empresas e aumenta tributos sobre bets (casas de apostas), fintechs e JCP (Juros sobre Capital Próprio, mecanismo usado por grandes empresas para se financiarem e que serve como uma forma da empresa remunerar sócios e acionistas).

O projeto, aprovado pela Câmara na madrugada, segue para sanção presidencial. O placar no Senado foi de 62 votos a favor do projeto e 6 votos contra.

O texto defendido pelo governo Lula (PT) evita um corte de despesas de mais de R$ 20 bilhões no Orçamento de 2026, o que atingiria também as emendas parlamentares. A aprovação destrava a votação do Orçamento, que deve ocorrer até sexta-feira (19) no Congresso, antes do recesso.

Os senadores aprovaram a proposta sem alterações para que não fosse necessária uma nova análise pela Câmara -que já não fará mais sessões este ano. O governo fez um acordo com a oposição, que não obstruiu a proposta em troca de os governistas também não atrapalharem a votação do projeto que reduz o tempo na prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros condenados por tentativa de golpe.

O projeto deixou fora da desoneração a folha de salários e programas relativos à política industrial para os setores de tecnologia de informação, comunicações e semicondutores do corte dos benefícios fiscais.

Também foi estabelecido um faturamento mínimo de R$ 5 milhões para o corte do benefício tributário de empresas do regime de lucro presumido.

Líder do governo no Congresso, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) foi o relator do projeto e defendeu que é importante fazer a revisão rotineira dos benefícios fiscais. “Não devemos esquecer que tal vantagem tributária, creditícia ou financeira será entregue para pequenos grupos específicos ao custo de diminuir a arrecadação que seria utilizada para outras políticas públicas”, disse.

Setores atingidos, no entanto, protestaram. “O setor produtivo vai pagar, mais uma vez, pelo ajuste das contas públicas. O Executivo deveria atuar para conter o crescimento dos gastos, mas essa não é a sinalização para 2026, quando as despesas federais devem ter crescimento real de 4,6%”, disse a CNI (Confederação Nacional da Indústria) em nota.

Leia Também:  Lula diz que Trump ainda não fez exigências após americano condicionar redução do tarifaço

A entidade afirmou que o corte linear atingirá benefícios fiscais meritórios, como aqueles voltados à inovação e ao desenvolvimento das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, compromete a capacidade de crescimento da indústria do país e causa insegurança jurídica, ao alterar as regras para investimentos já planejados ou em execução.

O presidente do Grupo FarmaBrasil, Reginaldo Arcuri, afirmou que o projeto impõe “severas restrições” ao uso de créditos tributários, aumenta os custos sobre 65% dos remédios vendidos no Brasil e ainda compromete as alíquotas reduzidas de ICMS, que estão condicionadas à manutenção da alíquota zero federal.

“Como o mercado farmacêutico é regulado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), vinculada ao governo federal, qualquer alteração tributária precisa ser automaticamente repassada ao preço final”, disse Arcuri.

Apesar dos protestos, o projeto passou no Senado menos de 24 horas após ser aprovado na Câmara -onde o parecer com os setores atingidos e os poupados só foi divulgado minutos antes de o texto entrar em discussão.

A redução de 10% dos benefícios incidirá sobre aquele concedidos com base em nove tributos: PIS/Pasep, PIS/Pasep-Importação, Cofins, Cofins-Importação, IRPJ (Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas), CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido), Imposto de Importação, IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e Contribuição Previdenciária do empregador. Parte foi extinto na reforma tributária e já acabaria em 2032.

O projeto poupa do corte a Zona Franca de Manaus, a cesta básica de alimentos, o Minha Casa Minha Vida, o ProUni (Programa Universidade para Todos), incentivos concedidos por tempo determinado cujo beneficiário já tenha cumprido a condição onerosa para fruição e outros com imunidades constitucionais.

As concessões no corte de benefícios foram compensadas com aumento de outros impostos. O mecanismo do JCP, usado principalmente por bancos, indústrias e setor imobiliário, teve a tributação elevada de 15% para 17,5%.

Leia Também:  Aliados de Bolsonaro veem Lula em alta e tentam frear pressão por escolha de sucessor

As bets terão aumento gradual na alíquota sobre a receita bruta de jogos (GGR, na sigla em inglês), que hoje é de 12%. O projeto eleva para 13% em 2026, 14% em 2027 e 15% em 2028. Apesar disso, o setor acabou beneficiado nas negociações de última hora, já que o governo mirava um aumento maior, para 18%, taxação aprovada pelo Senado. Parlamentares pressionaram contra, dizendo que isso ampliaria o mercado ilegal.

No caso das fintechs, a CSLL também aumentará de forma escalonada. A alíquota para fintechs e instituições de pagamento, administradoras de mercado de balcão, Bolsas de Valores e de mercadorias subirá de 9% para 12% em 2026. A partir de 2028, passará para 15%.

Para as sociedades de crédito, financiamento e investimento e empresas de capitalização, a alíquota saltará de 15% para 17,5% em 2026 e para 20% em 2028. A cobrança de 20% hoje é exclusiva dos bancos.

A Zetta, que representa as fintechs, criticou a votação e disse que vai contra a agenda de ampliação de competitividade do setor. “Surpreende que setores que ampliaram o acesso a serviços financeiros, estimularam a formalização e fortaleceram a concorrência do setor sejam penalizados, enquanto outras atividades, cujos efeitos sociais adversos já são amplamente reconhecidos e noticiados, não enfrentem ônus proporcionais”, disse em nota.

O relator do projeto na Câmara, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), disse que o Ministério da Fazenda calculou o impacto no próximo ano será de R$ 17,5 bilhões em recomposição de receitas, de R$ 2,5 bilhões em aumento de impostos com a mudança na tributação do JCP, R$ 1,6 bilhão com fintechs e R$ 850 milhões com bets.

O Congresso ainda aproveitou o projeto para ampliar o pagamento das emendas parlamentares. O texto permite que aquelas inscritas como restos a pagar entre 2019 e 2023 e que foram canceladas sejam revalidadas e possam ser liquidadas até dezembro de 2026. Além disso, cria um mecanismo para viabilizar a quitação mesmo em caso de insuficiência dos valores para execução integral dos objetos propostos.

Compartilhe essa Notícia

publicidade

Expresão Local
Resumo sobre Privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a você a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você acha mais interessantes e úteis.

Saiba mais lendo nossa Política de Privacidade