LÍVIA GOULART E RAQUEL ATHAIDE
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Motoristas de aplicativo em São Paulo receberam com cautela o novo programa do governo Lula (PT) voltado à categoria, que começa a ser aplicado a partir desta sexta-feira (19). A medida prevê R$ 30 bilhões em financiamento facilitado para compra e troca de carros de até R$ 150 mil reais.
O Move Brasil Táxi e Aplicativos oferece taxas de juros menores que a vigente no mercado, hoje em 1,9% ao mês e 25,6% ao ano, segundo dados do Banco Central. A ideia do governo é que os juros fiquem abaixo da taxa Selic anual, agora 14,5%.
Só é possível comprar carros flex, híbridos ou elétricos com o crédito do programa. A justificativa é estimular o uso de combustíveis renováveis, como etanol, de preferência os produzidos no Brasil.
Podem se beneficiar motoristas com cadastro ativo há pelo menos um ano, que tenham concluído no mínimo cem corridas nesse período.
A Folha entrevistou sete profissionais que trabalham com táxi ou aplicativos de corrida, como Uber e 99. A maioria acredita que o programa vai beneficiar os trabalhadores. Ainda assim, há ressalvas quanto às motivações políticas e ao período do anúncio, feito cinco meses antes da eleição.
É consenso entre os motoristas ouvidos que a iniciativa é positiva. As corridas, alegam, são mal remuneradas por conta das taxas impostas pelas empresas. Na contramão, a ação do governo entra como uma alternativa para reduzir gastos e facilitar a compra e troca de veículos.
É o que diz Leandro Oliveira, 51, motorista de aplicativo. “O valor gasto para manter e pagar um carro é muito alto e demanda boa parte do que a gente recebe no mês”, afirma. Ele considera votar no Lula se o programa funcionar como prometido pelo governo.
Os outros motoristas entrevistados afirmaram que o benefício não influenciará na decisão de voto. Silvio Vidal, 53, dirige como táxi e para a Uber. Ele, por exemplo, diz que a iniciativa soa como estratégia política para ganhar votos na eleição deste ano, apesar de ver a medida de forma positiva.
“O Lula ficou três anos sem olhar para a categoria e agora, faltando poucos meses para a eleição, quer se aproximar”. Para Vidal, ações como essa não aproximam os profissionais do presidente.
O taxista Bruno Melquiades, 30, e o motorista de aplicativo Edison Silva, 52, enxergam a mesma motivação na iniciativa. Melquiades afirma que, mesmo com um mandato inteiro para implementar melhorias, o governo quer agradar os motoristas por interesse eleitoral. “Fez só para ganhar voto”, diz.
Silva, que comprou um carro recentemente e não será beneficiado pelo programa, reconhece que a medida pode ajudar a categoria, mas diz que ainda faltam soluções para problemas centrais da profissão, como o preço dos combustíveis. Mesmo aprovando a proposta, ele diz que é “jogada política em ano de eleição”.
Já Diego Fernandes, 34, é motorista de aplicativo de forma esporádica e diz ter percebido a mistura de interesses políticos e econômicos. Segundo ele, melhorias demoraram a chegar aos profissionais de aplicativo, especialmente se comparadas aos benefícios já concedidos aos taxistas.
Os motoristas de táxi podem obter até 30% de desconto na compra de carros zero-quilômetro, concedido por meio da isenção de impostos federais e estaduais.
Pontos principais do PLP 152/25, que regulamenta o trabalho por app
Desconto máximo de 30% por serviçoAs empresas não poderão descontar mais de 30% daquilo que o usuário pagou
Composição de custos para a atividadeA remuneração bruta considera 75% de custos. Os outros 25% equivalem aos serviços executados
Preço mínimo por corrida ou por entregaFixado em R$ 8,50, com a previsão de atualização anual pelo INPC
O que as empresa não poderão exigir:Relação de exclusividade; Jornada mínima de trabalho; Que o trabalhador aceite o serviço; Punição por desconexão
Contribuição ao INSSTrabalhadores pagarão 5% sobre os 25% equivalentes aos serviços executados Empresas pagarão 20% + 2% para um financiamento contra acidentes de trabalho
Segundo Ricardo Toledo, 52, que dirige para a Uber, não seria necessário incluir os taxistas no novo programa de financiamento do governo. “Não mudaria nada para eles, porque a categoria já recebe desconto na compra de carro, além de ter leis próprias”.
O motorista Leandro Oliveira é o único entre os entrevistados que acredita na aproximação de Lula com os motoristas por conta do novo programa. Ele diz que, para melhores condições de trabalho, o governo precisa dialogar mais com as empresas.
Lula tentou regulamentar o trabalho por aplicativos, mas houve divergência nas negociações com o Congresso Nacional e a discussão ficou para o ano que vem. Em dezembro de 2025, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), encabeçou um grupo de trabalho para tratar do assunto.
O PLP 152/2025, de autoria do deputado federal Luiz Gastão (PSD-CE), queria regulamentar o trabalho de motoristas e entregadores por aplicativos. Os motoristas, porém, não concordam com o projeto, por não atender a demanda dos trabalhadores. A gestão petista, que a princípio se posicionou contra o projeto de Gastão, também considera que as relações de trabalho por meio dos aplicativos são precárias.
“É um modelo que aparenta proteção, com um mínimo de seguridade social, mas, na prática, valida a superexploração das plataformas”, disseram lideranças dos trabalhadores por aplicativos à Folha.











