Dólar fecha praticamente estável, apesar de emprego mais fraco nos EUA

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Dólar fecha praticamente estável, apesar de emprego mais fraco nos EUA

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São Paulo, 02 – O dólar chegou a ensaiar queda firme frente ao real pela manhã, alinhado ao comportamento da moeda americana no exterior após a divulgação do relatório de emprego (payroll) dos EUA de junho, mas ganhou força ao longo da tarde e encerrou a sessão desta quinta-feira, 2, cotado a R$ 5,2083 (-0,04%). Na semana, acumula valorização de 0,79%.

Operadores afirmam que o ambiente doméstico, marcado pela percepção de piora do quadro fiscal e de desidratação da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), limita o fôlego do real – especialmente após o fim do chamado “trade do petróleo”, dado mergulho dos preços da commodity com as negociações de paz entre EUA e Irã.

“O mercado local até tentou acompanhar o alívio externo, com o payroll mais fraco esfriando as apostas em alta de juros pelo Federal Reserve neste ano, mas acabou jogando a toalha”, afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo. “Mesmo com fluxo cambial positivo, não há clima para apostar na queda do dólar, porque a sensação é de que o governo vai aumentar gastos de olho na eleição.”

Depois de tocar mínima a R$ 5,1593 após a divulgação do payroll, o dólar começou a recuperar terreno, com ajustes intradia. No início da tarde, superou o nível de R$ 5,21 e registrou máxima de R$ 5,2197. A febre compradora arrefeceu logo em seguida, sem razão aparente, e a moeda passou a rondar a estabilidade.

Embora não tenham cravado um motivo para a arrancada pontual do dólar, analistas mencionaram desconforto com falas do ministro da Fazenda, Dario Durigan, sobre a reforma tributária e até nova reportagem do site The Intercept Brasil sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.

Em carta mensal a investidores, a Kinea Investimentos afirma que o ambiente externo mais desafiador, com perspectiva de eventual aumento dos juros nos EUA, agrava a percepção sobre os problemas domésticos, como a política fiscal expansionista. “Quando o real fica vulnerável, o câmbio vira o canal de transmissão externo da nossa fragilidade doméstica. Não temos exposição ao real no momento”, afirma a gestora.

Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY caiu mais de 0,50% e furou o piso dos 101,000 pontos, com mínima aos 100,558 pontos. O Dollar Index recua cerca de 0,50% nos dois primeiros pregões de julho, após alta de mais de 2% no mês passado. No ano, avança pouco mais de 2,60%.

O payroll mostrou geração de 57 mil vagas de emprego em junho, abaixo da mediana das estimativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de 110 mil. A taxa de desemprego caiu de 4,3% em maio para 4,2% em junho, sobretudo pela menor taxa de participação no mercado de trabalho, observa, em nota, o economista-chefe internacional do banco ING, James Knightley.

Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra que as chances de uma elevação dos juros pelo Federal Reserve em setembro recuaram da casa de 64% para pouco mais de 50%. As expectativas para um aperto monetário em dezembro seguem acima de 70%. A leitura de um mercado de trabalho ainda sólido, apesar da geração de vagas aquém das estimativas, e a postura mais dura da nova direção do BC americano sustentam as apostas em juros maiores.

Para o economista do ING, a divulgação da inflação ao consumidor nos EUA em junho, no próximo dia 14, deve mostrar uma queda na comparação mensal, em razão do recuo dos preços da gasolina – o que provavelmente terá mais impacto “psicológico” nos investidores. “Continuamos a prever uma pausa prolongada nos juros pelo Federal Reserve, mais do que uma alta neste ano”, afirma Knightley.

Bolsa

Ainda que o movimento tenha arrefecido e sido envolto por baixa liquidez, o Ibovespa sustentou alta do início ao fim do pregão nesta quinta-feira, 2. A máxima dos 174 mil pontos pela manhã veio com a leitura de que os Estados Unidos podem não precisar subir juros em 2026, após payroll mostrar criação de empregos menor do que a esperada.

Contudo, a piora das Bolsas de Nova York e os ruídos em torno de como ficará a relação do Brasil com a maior potência do mundo – com proximidade cada vez maior de novo tarifaço -, além de desconforto fiscal, fizeram o índice perder força.

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Após abertura estável aos 171.697,17 pontos, o Ibovespa tocou máxima aos 174.425,69 pontos, com alta de 1,59%, diante da euforia dos mercados globais ao payroll, que mostrou criação de 57 mil empregos em junho, em resultado bem abaixo da mediana das estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de 110 mil. Os números de geração de vagas de maio e de abril foram revisados para baixo.

Plataforma do CME Group mostra que o mercado reduziu as apostas de alta dos Fed Funds em setembro de 64,3% para 50,6% após o payroll. Contudo, o relatório de emprego americano também mostrou que a taxa de desemprego recuou para 4,2% em junho, abaixo da previsão de manutenção em 4,3%.

Na avaliação do Bradesco, o payroll muda pouco o quadro para o Federal Reserve (Fed), visto que a fraqueza concentrada em devolução setorial e a pressão de custos controlada não alteram a função de reação de maneira relevante, ainda que contrastem com a comunicação recente, que vinha enfatizando um mercado de trabalho forte.

Diante de sinais divergentes do dado americano, os juros dos Treasuries acabaram invertendo o sinal e passaram a subir, o que engatilhou novas máximas da curva a termo brasileira, junto com o desconforto fiscal e político no Brasil. Isso acabou reduzindo o apetite na renda variável, com Ibovespa se afastando das máximas.

“Após os investidores digerirem os dados do mercado de trabalho dos EUA, há uma renovação de temor quanto a como ficará a relação entre o Brasil e os Estados Unidos”, afirma o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo.

Segundo ele, a aproximação do pré-candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, com os EUA pode aumentar a tensão política. “A aproximação de Flávio Bolsonaro com os EUA, em detrimento do relacionamento que Lula e Trump nutriam nas últimas semanas, sugere que os próximos meses podem ser marcados por novos atritos com o governo e aumentar a volatilidade”, avalia.

Flávio enviou nesta quinta-feira uma manifestação ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) na qual pede a suspensão imediata da tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras. No documento, a equipe de Flávio reuniu reportagens para sustentar que a tarifa passou a ser explorada politicamente pelo governo e por veículos de imprensa alinhados ao Palácio do Planalto. Segundo o senador, a medida foi convertida em uma acusação de traição contra a oposição.

Já Lula afirmou, no X, que “é inaceitável que a família Bolsonaro queira submeter o Brasil aos interesses dos EUA” e que “a origem de tudo foi motivada pela própria família Bolsonaro, que defendeu a alta das tarifas”.

Pesquisas eleitorais recentes têm mostrado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa para a Presidência da República deste ano.

O estrategista-chefe da Krivo Capital, Marco Saravalle, notou ainda que a Bolsa teve um volume fraco e com menor presença de investidores estrangeiros, com a proximidade do feriado nos Estados Unidos – com alguns ativos americanos inclusive tendo pregão reduzido, como foi o caso das Treasuries.

“Também tivemos a piora das bolsas americanas durante essa sinalização antes do feriado, e toda essa preocupação em relação a juros futuros no Brasil”, afirma, notando ainda que apesar da melhora marginal trazida por um payroll mais fraco, a falta de catalisadores e as incertezas com os juros limitam o apetite por risco. Ele também apontou que o noticiário político e fiscal segue no radar, com a curva de juros “muito estressada” e dúvidas sobre a condução da política econômica.

O Ibovespa, por fim, fechou com alta de 0,64%, aos 172.787,62 pontos, levando o índice a reduzir a perda semanal para 0,29% e alongando o avanço anual para 7,24%. O giro financeiro somou R$ 19,57 bilhões. Por fim, todas as blue chips, tanto financeiras quanto de commodities, fecharam no azul: Petrobras ON (1,27%) e PN (0,34%), Vale ON (0,35%) e alta dos bancos de Itaú PN (0,07%) a Banco do Brasil ON (1,37%).

Juros

Os juros futuros negociados na B3 tiveram nova sessão de alta nesta quinta-feira, 2, mesmo com dados mais fracos do payroll nos Estados Unidos e ausência de novos gatilhos no quadro político local. As taxas reagiram ao leilão do Tesouro Nacional que colocou integralmente no mercado 23,65 milhões de papéis prefixados, e também acompanharam o movimento internacional de inclinação das curvas globais, desencadeado por ameaças de intervenções do governo do Japão no iene.

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As iniciativas para conter a desvalorização da moeda japonesa têm sido interpretadas por investidores como uma tentativa de evitar que o Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) precise elevar os juros, o que impulsionou um ‘steepening’ das curvas de juros no mundo e também no Brasil. Fontes informaram à Reuters que o Ministério das Finanças busca aumentar a incerteza entre investidores e pressionar posições especulativas vendidas na divisa japonesa, sem indicar um nível específico do câmbio que motivaria uma intervenção.

No âmbito doméstico, o aumento das preocupações com a política fiscal e com a disputa eleitoral, além de um leilão agressivo de títulos prefixados do Tesouro Nacional, também não deram refresco aos juros.

Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 registrou alta de 14,025% no ajuste de quarta a 14,035%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 14,385%, de 14,26%. O DI para janeiro 2031 subiu de 14,349% a 14,49%.

“O mundo inteiro está ‘steepando’, meio puxado pelo Japão. O governo está ameaçando intervir na moeda, o que faz o mercado achar que é para o BoJ não precisar subir juros. Aí as curvas inclinam”, explicou um estrategista de uma grande tesouraria à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).

De fato, apesar de o payroll ter mostrado a criação de apenas 57 mil vagas no mercado de trabalho norte-americano em junho, pouco mais da metade do consenso de mercado de 110 mil, o retorno da T-Note de 10 anos fechou em 4,486%, e do T-Bond de 10 anos, em 4,978%. A sessão foi encerrada mais cedo por conta do feriado do Dia da Independência dos EUA, comemorado no sábado e antecipado neste ano para amanhã.

Para Jonas Goltermann, economista-chefe de mercados da Capital Economics, o dado aquém do esperado jogou um pouco de água fria na ideia de que a economia americana está sobreaquecida. Ainda assim, a consultoria britânica segue avaliando que o Comitê de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) do Federal Reserve continuará com sua postura mais conservadora, ao mesmo tempo em que a curva de juros dos EUA deve voltar a se achatar nos próximos meses, acompanhada de fortalecimento do dólar.

No Brasil, os juros futuros chegaram a ensaiar recuo na abertura dos negócios diante dos números do payroll, mas o alívio teve vida curta. Isso porque a colocação pelo Tesouro de 20 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN) e 3,650 milhões de Notas do Tesouro Nacional – Série F (NTN-F) voltou a pressionar a curva. Com risco adicionado ao mercado 9% acima do certame da semana passada, nos cálculos da Warren Investimentos, os dois lotes foram totalmente absorvidos pelos players.

“Esperávamos um leilão um pouco menor. Mas olhando a oferta de hoje [quinta-feira], o Tesouro transmite a mensagem de que aproveitará as janelas para emissões de prefixados como também fez na semana passada. Hoje especificamente o mercado foi piorando ao longo da manhã e o leilão acabou contribuindo para a alta nos juros”, afirmou à Broadcast Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren.

Head de renda fixa da Suno Research, Guilherme Almeida aponta que, além do leilão, os mesmos vetores que determinaram o aumento dos juros na última sessão também seguiram presentes: as pesquisas eleitorais que mostram o presidente Lula na dianteira são interpretadas pelo mercado como maior risco fiscal, o que se reverte em prêmios de risco maiores, sobretudo nos vértices mais longos.

“O conflito no Irã teve protagonismo nos últimos três a quatro meses, mas a pauta fiscal, quanto mais perto da eleição ficamos, historicamente deixa a curva mais volátil”, observa Almeida. Nos últimos quatro pleitos presidenciais, menciona ele, a curva de juros futuros ganhou mais inclinação de forma proporcional ao grau de expansionismo da pauta fiscal dos principais candidatos.

Estadão Conteúdo

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