Aquecimento global faz cientistas mudarem análise do El Niño

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Aquecimento global faz cientistas mudarem análise do El Niño

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JÉSSICA MAES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O oceano —que absorve cerca de 90% do excesso de calor preso na atmosfera devido aos gases de efeito estufa— está tão quente que cientistas decidiram mudar a análise do El Niño.

O fenômeno climático é caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico, na região próxima da linha do Equador, acima da média histórica. Quando as águas dessa área se resfriam, acontece o La Niña. E quando as temperaturas ficam dentro da média, é considerado um período de neutralidade.

Recentemente, porém, a agência dos Estados Unidos de ciência climática e oceânica, conhecida pela sigla Noaa, anunciou uma revisão nos seus parâmetros.

O método antigo media as anomalias (variações fora da média) da temperatura da superfície do mar em termos absolutos. O novo subtrai a anomalia média de temperatura de toda a faixa tropical da Terra da medição regional —ou seja, calcula se é realmente só a região central do Pacífico que está mais quente ou se a temperatura dali apenas reflete o quadro global.

Na prática, a nova técnica “desconta” o calor excessivo do oceano provocado pela mudança climática dos resultados, aumentando a precisão da medição.

Segundo a entidade, no último ano o chamado índice relativo de temperatura da superfície do mar representou melhor a intensidade das mudanças atmosféricas associadas ao ciclo de El Niño e La Niña.

“É a mudança na precipitação e no aquecimento tropical que, em última análise, impulsionam as variações sub-sazonais a sazonais que observamos nas latitudes médias [em zonas tropicais]”, diz o informe da Noaa que comunicou a mudança, válida desde 1° de fevereiro.

Analisando a revisão da série histórica de dados, é possível ver que uma consequência da metodologia é que alguns trimestres que eram considerados como El Niños fracos, passaram a ser interpretados como períodos neutros. Também houve aumento nos trimestres em que é registrada a ocorrência da La Niña.

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“Se usarmos esse indicador para calcular os El Niños do passado, eles provavelmente não serão tão intensos, já que muitas dessas medições estavam ‘contaminadas’ pelo fato de o oceano já estar mais quente”, explica o meteorologista Tércio Ambrizzi, diretor do IEA-USP (Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo).

“Em compensação, as La Niñas talvez sejam um pouco mais exaltadas, uma vez que você tirou aquele aquecimento extra.”

Estudioso do fenômeno, ele avalia a mudança como positiva, mas diz que o método será posto à prova por cientistas de todo o mundo ao longo dos próximos meses.

“Ainda é um pouco cedo para vermos se ele vai refletir mais realisticamente os eventos de El Niño e La Niña. Como há uma tendência de que neste ano possa ocorrer um El Niño, ainda não muito forte, a partir do segundo semestre, será um bom momento para testar esse novo indicador”, diz.

Para a oceanóloga Regina Rodrigues, pesquisadora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), o ideal seria fazer uma análise de impacto comparando as duas formas de medição.

“Essa mudança na análise pode fazer com que, mesmo sem a classificação de El Niño, tenhamos anos com impactos parecidos, devido ao aquecimento geral do oceano alterando a atmosfera”, pondera ela. “A resposta da atmosfera é à temperatura total. Lógico que nós queremos entender a diferença entre variabilidade natural e mudanças climáticas no oceano Pacífico, mas o mais importante são os impactos que [o El Niño] causa.”

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O físico atmosférico Paulo Artaxo, pesquisador da USP, reitera que “o clima mudou”. “Não faz mais sentido, por exemplo, chamar São Paulo de ‘terra da garoa’. A mesma coisa vale para a escala global. Não faz sentido usar o patamar antigo para classificar o El Niño porque a temperatura do oceano mudou e isso muda os fluxos de energia”, afirma.

“Precisamos reavaliar as nossas políticas públicas de adaptação ao novo clima.”
No Brasil, normalmente um ano de El Niño de moderado a forte provoca seca no Norte e Nordeste, que pode propiciar grandes incêndios, e chuvas intensas no Sul, que podem levar a inundações e deslizamentos.

A última manifestação deste evento climático ocorreu durante a primavera e o verão de 2023, se alongando até o início do outono de 2024.

O relatório mais recente da Noaa aponta que deve haver uma transição da La Niña para neutralidade de temperatura no próximo mês, e há 62% de possibilidade do El Niño surgir no trimestre que vai de junho a agosto e persistir ao menos até o final de 2026.

A intensidade do fenômeno ainda é muito incerta, diz a agência, mas existe uma chance de 1 em 3 de que ele seja forte no último trimestre do ano.

O observatório climático europeu ECMWF também aponta nesse sentido, mas diz que o El Niño pode começar a se manifestar ainda mais cedo, em maio. Ao longo dos meses seguintes, a previsão é de alta probabilidade de evolução para, ao menos, moderado a forte.

A agência europeia ainda não anunciou se deve acompanhar a Noaa e fazer mudanças no seu sistema de análise.

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