Políticos envolvidos no caso Master driblam escândalo e conseguem se eleger

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Políticos envolvidos no caso Master driblam escândalo e conseguem se eleger

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TAMARA NASSIF
SÃO PAULO

A crise do Banco Master e o envolvimento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro levaram nomes centrais da política brasileira a intenso escrutínio público. Mas isso não impediu que, neste domingo (4), muitos deles saíssem vitoriosos nas urnas.

A Folha de S.Paulo monitorou 16 candidatos ao Executivo e ao Legislativo que, em maior ou menor grau, estiveram envolvidos com o caso que vem sendo apontado como o maior escândalo de corrupção recente do país.

Os postulantes tentaram se eleger à Câmara dos Deputados, ao Senado, a governos estaduais e, no caso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), à Presidência da República.

O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) liderou a votação no primeiro turno e disputa o tira-teima com o atual incumbente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), confirmando a polarização que se ensaiava desde as primeiras pesquisas de intenção de voto para o Palácio do Planalto.

Flávio marcou 47% nas urnas, à frente de Lula por dois pontos percentuais. A marca revela como a campanha driblou a grande crise que a abateu em maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a relação do senador com Vorcaro.

“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”, escreveu Flávio em 16 de novembro do ano passado, um dia antes do ex-banqueiro ser preso pela Polícia Federal. Ele pediu o equivalente a R$ 134 milhões a Vorcaro para financiar o filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, “Dark Horse”. Desse total, R$ 61 milhões foram efetivamente pagos.

Flávio é investigado em inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal) a pedido da PF. Ele nega irregularidades ou o uso de dinheiro público na produção, sustentando que o acordo com o banqueiro foi de natureza estritamente privada.

O deputado federal Mario Frias (PL-SP), que deve ser reeleito com mais de 90 mil votos, também esteve envolvido no caso da cinebiografia. Ex-secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro, Frias é produtor-executivo de “Dark Horse” e foi alvo de operação da PF, sob suspeita de desvio de recursos públicos para a produção do filme.

Ele é autor de R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, dirigido pela também produtora do filme, Karina Gama.

Áudios e conversas mostram que o deputado manteve contato e agradeceu o apoio de Vorcaro ao filme. “Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando”, disse ao ex-banqueiro. O deputado disse não ter “nenhuma preocupação com isso”. “Apenas produzi um filme”, afirma.

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O deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), atual presidente da Câmara, deve ser reeleito, chegando a mais de 120 mil votos. Segundo mensagens extraídas pela PF, o parlamentar tinha uma relação de proximidade com Vorcaro, com trocas de elogios, pedidos de camarote em festa e lembranças de viagem.
Um dos momentos que expõem a proximidade de Motta e Vorcaro é uma conversa de 23 de maio do ano passado. Vorcaro disse que estaria em Belo Horizonte no final de semana seguinte e acrescenta: “Mas queria mesmo estar era em Mônaco com você”.

A essas mensagens se somam outros diálogos sobre assuntos como a liberação de um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões para uma empresa da cunhada do deputado. Motta também sugere ao ex-banqueiro um “formato em sociedade”, na operação de compra de um terreno na Paraíba que estava no nome da cunhada.

Procurado, Hugo Motta disse que, enquanto parlamentar em seu quarto mandato na Câmara, sempre manteve diálogo com os diversos segmentos do empresariado e representantes da sociedade brasileira.
“Enfatizo que não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados e repudio à tentativa de atribuir conversas descontextualizadas a qualquer relação de interesse espúrio ou de favorecimento por minha parte. Tenho uma vida limpa, assim como é limpa a minha atuação política nesses 15 anos de vida pública”, apontou.

Também na Câmara, o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, deve ser eleito pelo Rio de Janeiro a despeito das denúncias. Ele e sua irmã advogaram pessoalmente para o Master entre 2023 e 2024, e Vorcaro lhe ofereceu carona de helicóptero durante o Grande Prêmio de Fórmula 1 em Interlagos, em 2024.

Ele admitiu ter prestado serviços de advocacia para o Banco Master. De acordo com a revista Piauí, o dirigente partidário, à frente do escritório Rueda & Rueda, afirmou que fez “dezenas de pareceres e centenas de reuniões, incluindo mais de mil audiências, cerca de 20 mil protocolos e aproximadamente 400 acordos”.

A nota diz ainda que o serviço representa “atividade profissional legítima, regular e plenamente compatível com o exercício da advocacia no país”, que atuou “em caráter estritamente técnico” e “sempre se deu dentro dos mais rigorosos padrões legais e éticos da advocacia”.

No Senado, Jaques Wagner (PT-BA) foi reeleito. Então líder do governo Lula na Casa, Wagner foi alvo de uma operação de busca e apreensão no âmbito das investigações do caso Master.

A PF apura suspeitas de que o senador recebeu pagamentos ligados ao banco por meio da empresa da esposa do enteado, além de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões. Wagner também confirmou ter indicado Ricardo Lewandowski como consultor do Master depois que o ex-ministro do STF deixou a corte. Pressionado, deixou a liderança do governo no Senado.

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A defesa de Wagner negou que o senador tenha se beneficiado com vantagens econômicas repassadas pelos gestores do Banco Master e disse que o parlamentar não é dono do imóvel.

Já o senador Ciro Nogueira (PP-PI), a quem Vorcaro se referiu como “grande amigo de vida”, é o principal nome entre os envolvidos com o Master que perderam as eleições.

A relação entre ele e Vorcaro era de “elevado grau de intimidade, confiança e proximidade”, segundo a PF,. com registros que vão de hospedagens em hotéis de luxo na Europa a repasses milionários.

O parlamentar apresentou em 2024 no Congresso uma proposta que foi apelidada de “emenda Master”, que aumentaria a garantia de cobertura de correntistas no FGC (Fundo Garantidor de Créditos) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão em caso de liquidação da instituição financeira. Os títulos podres vendidos pelo Master tinham como principal atrativo a garantia pelo FGC. A “emenda Master”, uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição), não avançou no Congresso.

Além disso, segundo a PF, o senador recebia quantias operacionalizadas por Felipe Vorcaro, primo de Daniel, com quem teria feito uma parceira “ligada aos pagamentos mensais correspondentes, inicialmente, ao valor de R$ 300 mil, com indícios de que teriam sido posteriormente aumentados para a importância de R$ 500 mil”.

O senador diz que “não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração”.

Na disputa pelo governo da Bahia, ACM Neto (União-BA) perdeu para Jerônimo Rodrigues (PT-BA), atual governador, por 43% a 55%.

Ex-prefeito de Salvador e vice-presidente do União Brasil, ACM Neto recebeu R$ 3,6 milhões do Banco Master e da Reag, gestora de recursos suspeita de envolvimento com o crime organizado, de março de 2023 a maio de 2024, segundo informações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).

Vorcaro, em proposta de delação premiada, ainda disse que ACM Neto recebeu 10% dos valores investidos por institutos de Previdência estaduais no Master. Rueda teria recebido o mesmo percentual.

À Folha ACM Neto confirmou os contratos, mas declarou que os serviços prestados por ele “não envolveram qualquer tipo de irregularidade” e não têm relação com as investigações envolvendo o Banco Master e a Reag.

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