A Polícia Civil de Goiás deflagrou, na manhã desta terça-feira (7/4), uma operação para desarticular um esquema de venda de vagas no sistema público de saúde em que pacientes pagavam até R$ 5 mil para furar a fila do Sistema Único de Saúde (SUS), inclusive para exames de alto custo e cirurgias.
As investigações apontaram que os pagamentos variavam entre R$ 1.200 e R$ 5 mil, conforme o tipo de procedimento. Em diversos casos, os valores eram cobrados para viabilizar atendimentos que deveriam seguir critérios técnicos, incluindo cirurgias estéticas para pacientes que não se enquadravam nas exigências do sistema público.
O esquema envolvia a manipulação direta das filas por meio da inserção fraudulenta de dados e da alteração de prioridades, beneficiando quem pagava e prejudicando usuários que aguardavam atendimento regular.
A operação Mercancia Torpe, conduzida pela Delegacia Estadual de Combate à Corrupção (Deccor), cumpriu 52 ordens judiciais, entre elas 17 mandados de busca e apreensão, seis prisões temporárias, cinco afastamentos de funções públicas e 24 quebras de sigilos bancário e fiscal.
Delegado Danilo Victor Nunes: fraude era praticada por pessoas que tinham a função de fazer o acesso ao sistema para organizar a inserção de pessoas na fila do SUS
Segundo a investigação, os envolvidos atuavam em áreas administrativas e tinham acesso direto aos sistemas de regulação ou a intermediários com esse acesso. Nesta etapa, a polícia mira outros agentes públicos suspeitos de participação nas fraudes, especialmente nos sistemas de regulação Servir, de âmbito estadual, e Sisreg, utilizado por municípios. Ao todo, 24 investigados foram identificados.
O inquérito apura crimes contra a administração pública, com foco na comercialização de vagas nas filas de regulação médica estadual e municipal. Há indícios de participação de agentes públicos da capital e de oito municípios do interior goiano.
“As pessoas geralmente eram vinculadas a cargos comissionados em municípios, administrativos. A maioria não tem cargo efetivo. Eram pessoas que tinham a função única de fazer esse acesso no sistema para organizar a inserção de pessoas na fila do SUS. Não temos informações de médicos ou enfermeiros, mesmo no quadro efetivo, que participaram dessas condutas”, explicou o delegado Danilo Victor Nunes.
A atual fase da investigação é desdobramento da Operação Hipócrates, deflagrada em fevereiro de 2023, que resultou na prisão de operadores do esquema e no afastamento de servidores públicos.
Sobrecarga do sistema e comprometimento do atendimento
A Polícia Civil informou que ficou evidenciada a existência de uma mercancia de vagas no sistema de saúde para realização de cirurgias, exames e consultas médicas, que deveriam ser ofertados de forma gratuita e universal.
Além da inserção irregular de pacientes, o grupo também alterava a prioridade na fila conforme o valor pago. Segundo a corporação, a prática sobrecarregava o sistema e comprometia o atendimento de quem aguardava na fila.
Os mandados foram cumpridos em Goiânia, Goianira, Aparecida de Goiânia, Senador Canedo, Corumbá de Goiás, Catalão, Cromínia, Cristianópolis, São Luiz do Norte e Maripotaba.
Seis pessoas foram presas por participação no esquema: Vanilson Pereira dos Santos Filho, Maria Dilma Cruz, Conrado Victor de Portugal Silva, Wanderson Vaz de Souza, Josilane Luzia da Silva e Carla Sandra Boracho da Silva.
Carla, ex-servidora da Prefeitura de Goiânia, foi presa em Cromínia. Ela ocupou cargo comissionado de assessora executiva na Secretaria Municipal de Saúde da capital goiana entre 2009 e 2024.
Os investigados poderão responder por falsidade ideológica, inserção de dados falsos em sistema de informação, corrupção passiva, corrupção ativa e associação criminosa.
Secretaria Estadual afirma que identificou irregularidade
Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás informou que a identificação das irregularidades teve origem em trabalho interno de monitoramento do sistema de regulação. A pasta declarou que colaborou com as investigações e repassou informações às autoridades competentes. Também afirmou que não há, até o momento, confirmação de envolvimento de servidores da regulação estadual e que a operação é desdobramento de apurações iniciadas anteriormente.
Já a Secretaria de Saúde de Aparecida de Goiânia informou que, até o momento, não foi formalmente comunicada sobre a investigação nem teve acesso à lista de pessoas presas. O município declarou não ser possível identificar eventual envolvimento de servidores locais e afirmou que não houve ações policiais em unidades da rede municipal de saúde. A administração também se colocou à disposição para colaborar com as investigações.
A reportagem não conseguiu contato com as defesas dos investigados até a última atualização. O espaço permanece aberto para manifestações.
O post Polícia desmonta venda de vagas na saúde pública em Goiás apareceu primeiro em Portal Notícias Goiás.











