Levantamento inédito do Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO), em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), revela que apenas duas rodovias federais concentram mais da metade dos acidentes registrados no Estado. As BRs 153 e 060 somam 54,1% das ocorrências, reforçando o alerta para a necessidade de intervenções prioritárias nesses trechos.
Os dados integram os primeiros resultados do Sistema Integrado de Ocorrências de Trânsito de Goiás (Sigo), iniciativa pioneira no país que busca unificar informações das áreas de trânsito, saúde e segurança pública. Mesmo com prazo de execução de 18 meses, o sistema já apresenta, em quatro meses, resultados relevantes e considerados preocupantes.
Entre os principais achados está a subnotificação de mortes no trânsito. Até então, os registros oficiais apontavam 1.606 óbitos em 2024. Com o cruzamento de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), esse número supera duas mil mortes no mesmo período, chegando a 2.074 casos.
A discrepância evidencia falhas na integração entre os sistemas. Do total de mortes registradas pela saúde, apenas 63%, ou 1.311 casos, constavam na base do Registro de Atendimento Integrado (RAI). O levantamento também identificou cerca de 295 mortes que não estavam classificadas como decorrentes de trânsito, o que indica inconsistências na definição das causas de óbito e representa um acréscimo de aproximadamente 15% nos registros.
Outro dado relevante aponta que, entre os 1.606 casos registrados no RAI como vítimas de sinistros, 63% evoluíram para óbito posteriormente. O resultado evidencia a importância de acompanhar o desfecho das vítimas após o atendimento inicial, algo que sistemas isolados não conseguem realizar com precisão.
‘Ferramenta permite adoção de políticas públicas mais eficazes’
Segundo o presidente do Detran-GO, Delegado Waldir, a ausência de integração entre as bases de dados pode gerar distorções graves, inclusive na percepção pública.
“Para evitar discrepâncias como essa, que já levaram Goiás a figurar no topo de rankings nacionais de forma imprecisa, estamos apresentando o Sigo, uma ferramenta inédita que permitirá uma leitura real do cenário e a adoção de políticas públicas mais eficazes”, afirma.
Delegado Waldir ressalta que trabalhar com dados imprecisos e subnotificação é extremamente grave: “A transparência é extremamente importante”, disse, ao mencionar casos de vítimas que morrem em hospitais e não eram registradas oficialmente fora da área da saúde.
“Então a gente unificou esses dados”, acrescentou, ao destacar que o sistema implantado em Goiás poderá servir de modelo para o país.
Delegado Waldir afirma ainda que o estudo permitirá aos órgãos públicos traçar políticas de infraestrutura mais eficientes e atuar nos pontos com maior incidência de acidentes.
“A pesquisa da Universidade Federal de Goiás em parceria com o Detran ainda leva 18 meses, temos apenas quatro meses, mas com resultados espetaculares”, disse.
“Desta forma, o Detran Goiás sai na frente e vai ensinar ao Brasil como é fazer um controle de dados transparente e verdadeiro”, concluiu.
Iniciativa coloca Goiás na vanguarda da gestão de dados
Apresentado oficialmente nesta quinta-feira (26/3), o Sigo propõe a criação de uma base unificada, interoperável e qualificada, reunindo dados de diferentes instituições. Nesta primeira etapa, o sistema já integrou informações da segurança pública, por meio do Registro de Atendimento Integrado, e da saúde, via Sistema de Informações sobre Mortalidade.
A expectativa é ampliar o projeto com a digitalização de dados do Samu e a adesão de novos parceiros, como as secretarias estaduais de Segurança Pública e de Saúde, a Polícia Rodoviária Federal, o Tribunal de Justiça e órgãos municipais. Com isso, será possível construir diagnósticos mais completos e precisos sobre causas, locais e perfis dos acidentes.
Para a coordenadora do projeto pela UFG, professora Poliana Leite, a iniciativa posiciona Goiás na vanguarda da gestão de dados ao disponibilizar informações qualificadas que podem contribuir para a redução da violência no trânsito.
“A integração das informações abre caminho para reduzir inconsistências e aproximar o Brasil de países que já possuem sistemas consolidados e baixos índices de mortes no trânsito”, destaca a coordenadora do curso de Engenharia de Transportes da UFG.
Além de qualificar os dados, o projeto também busca orientar ações mais eficazes de prevenção, fiscalização e atendimento às vítimas. Em um cenário em que os sinistros de trânsito seguem entre as principais causas evitáveis de morte no mundo, iniciativas como o Sigo são consideradas estratégicas para salvar vidas.
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