Na estreia do espaço ESG no Campo, trazemos uma entrevista com Lucas Galvan, superintendente do Senar/MS.
Ele diz que o sistema que valoriza os pilares Meio Ambiente, Social e Governança não deve ser visto como barreira, e, sim, como oportunidade de valorização e diferenciação.
O produtor tem papel central, por exemplo, na busca pela baixa emissão de carbono, seja pela conservação da vegetação nativa, pela recuperação de nascentes, pelo uso racional dos recursos naturais ou pela adoção de boas práticas agropecuárias que reduzem a pegada de carbono e contribuem para a descarbonização da produção.
Destaca que o assunto já faz parte da agenda do Sistema Famasul e estará presente em discussões internacionais, como a COP 30, onde o Brasil terá a oportunidade de mostrar que o agro é parte da solução para os desafios climáticos globais.
Qual a importância de se começar a olhar o ESG com mais atenção?
O ESG não é algo novo para o campo, mas uma forma de dar visibilidade ao que o produtor rural já faz há décadas. Preservação de nascentes, conservação da vegetação nativa, capacitação de pessoas e gestão eficiente já são práticas presentes no dia a dia das propriedades.
O que muda agora é a exigência do mercado, de consumidores e de políticas públicas, que pedem comprovação para essas ações. Por isso, olhar para o ESG com mais atenção é essencial para manter competitividade, acessar mercados exigentes e garantir sustentabilidade no longo prazo.
De 0 a 10, qual o grau de urgência da implantação de ESG nos sistemas de produção rural de MS?
Eu diria que o grau de urgência é 9. O ESG já é uma exigência de mercado e será cada vez mais determinante nos próximos anos, especialmente em pontos como rastreabilidade, descarbonização e boas práticas agroambientais.
Para grandes produtores e agroindústrias, a pressão é maior, já que atuam em exportação e precisam atender padrões internacionais. Para pequenos e médios, a urgência também existe, mas os desafios são maiores devido às limitações técnicas e financeiras.
O papel do Sistema Famasul como instituição é apoiar esse público e oferecer, por meio da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), dos cursos de Formação Profissional Rural (FPR) e da Promoção Social (PS) do Senar/MS, os recursos necessários para que não fiquem para trás.
Por onde o produtor deve começar a implementação de ESG?
O primeiro passo é o diagnóstico, ou seja, entender como está a propriedade em termos de gestão ambiental, social e de governança.
O programa ATeG ESG, criado pelo Senar/MS em 2022, já faz esse trabalho de forma estruturada.
Com a aplicação de questionários, identificamos os pontos fortes da propriedade e o que pode ser melhorado, e a partir daí o produtor recebe orientação prática e contínua para avançar com responsabilidade e resultados.
Onde os produtores podem adquirir conhecimento sobre ESG?
No Senar/MS, os produtores têm acesso a uma série de capacitações que já estão incluídas no sistema de contribuição do setor, sem custo adicional.
São cursos presenciais e a distância, oficinas de educação agroambiental, programas de saúde no campo e a própria assistência técnica e gerencial (ATeG ESG).
Além disso, existem também opções pagas no mercado, como consultorias privadas, certificações específicas e auditorias, especialmente voltadas para produtores que buscam atender a padrões mais exigentes.
Como o produtor faz para divulgar que está cumprindo as exigências do ESG?
O ponto central é ter registros e comprovações, seja em relatórios técnicos, indicadores de boas práticas ou certificações.
Muitas vezes o produtor já pratica ESG sem usar esse nome, e nosso trabalho é justamente ajudá-lo a validar e comunicar essas ações corretamente.
A divulgação pode ser feita diretamente para clientes, por meio de programas de rastreabilidade e certificações, ou de forma institucional, em cooperativas, associações e mercados.
Há um levantamento sobre a porcentagem de propriedades que já praticam o ESG no estado?
Na ATeG ESG, já aplicamos 2.718 diagnósticos em propriedades de diversas cadeias produtivas, alcançando 71% de conformidade com os requisitos de sustentabilidade em 2024.
Esse índice vem crescendo a cada ano: foi 64% em 2022, 70% em 2023 e agora 71%.
Outro dado importante é a recuperação de nascentes. Desde 2020, já foram identificadas e recuperadas 2.233 nascentes em 68 municípios de Mato Grosso do Sul, e em 2024 o índice geral de conservação dessas áreas atingiu 70%, um avanço significativo em relação ao ano anterior (64%).
Esses números refletem a evolução consistente e o engajamento dos produtores.
Há resistência do produtor?
Existe alguma resistência, principalmente entre pequenos e médios produtores, devido a barreiras econômicas, técnicas e à dificuldade de compreender o ESG, que muitas vezes chega ao campo em uma linguagem urbana e genérica.
Nosso trabalho é traduzir esse conceito para a realidade prática da propriedade, mostrando que ESG não é custo, mas investimento em gestão, sustentabilidade e acesso a mercados.
Na prática, a resistência diminui quando o produtor percebe os benefícios diretos, como o aumento da produtividade, a valorização da propriedade e novas oportunidades de mercado.
Que benefícios o ESG traz para a produção?
Os benefícios valem para propriedades de todos os tamanhos. O ESG funciona como uma ferramenta de gestão, permitindo que o produtor conheça melhor sua realidade, tenha controle mais preciso da produção e da propriedade e consiga identificar onde pode investir para gerar mais resultados.
Esse olhar estruturado reduz riscos, evita desperdícios e amplia a eficiência do uso de recursos. Além disso, abre portas para certificações, acesso a mercados mais rentáveis e linhas de crédito diferenciadas.
Outro ponto importante é a valorização da propriedade e do produto, fortalecendo também a imagem do produtor perante a sociedade.












