LUANA LISBOA E EDUARDO MOURA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O discurso voltado ao endividamento, custo de vida e violência cotidiana beneficiou a campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), assim como o afastamento do tom de confronto associado ao pai do candidato.o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), segundo analistas ouvidos pela reportagem.
Do outro lado, o presidente Lula (PT) apostou no legado de seus governos anteriores, em campanha confiante na biografia do petista, o que especialistas avaliam ter sido uma escolha equivocada.
A propaganda no rádio e na TV do segundo turno recomeça nesta sexta-feira (9) e vai até 23 de outubro, antevéspera da votação. São dois blocos diários de dez minutos para a disputa presidencial, divididos igualmente entre Lula e Flávio, além de inserções ao longo da programação. Nos estados com segundo turno para governador, há blocos próprios no mesmo formato.
O senador terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, e o mandatário chega com 45,16%. Embora o resultado não se explique apenas pela comunicação dos candidatos, segundo os pesquisadores, as escolhas de cada campanha ajudam a entender a menor diferença já registrada em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização. Desde 1989, em todas as eleições decididas em segundo turno, venceu quem liderou a primeira votação.
Na avaliação do professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e colunista da Folha de S.Paulo, Wilson Gomes, a propaganda não oferece ao leitor uma perspectiva de futuro. “Você escolhe dizer para o eleitor que ele deve olhar para trás e escolher você. E olhar para trás dá torcicolo”, afirma. Para Gomes, faltou ao PT um discurso consistente sobre algo que só Lula poderia fazer e que mudaria a vida do eleitor.
A propaganda petista também deu pouca resposta sobre promessas de 2022 que não foram cumpridas, avalia Camilo Aggio, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pesquisador do INCT.DD (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital). “Campanhas eleitorais são sobre o futuro”, reforça.
De início, tratando também de soberania, tema que Aggio avalia ser mais distante das preocupações do eleitor, a propaganda passou a falar de renda ao se aproximar do pleito eleitoral. A estratégia foi corrigida depois que Flávio levou esses temas ao centro da própria propaganda, afirma.
Na segurança pública, o filho de Jair Bolsonaro falou de roubo de celular, facções e redução da maioridade penal, o que Aggio descreve como um discurso punitivista voltado à violência do dia a dia. Para ele, a campanha do senador foi enxuta e tratou de problemas vividos pelo eleitor a cada semana.
Ao priorizar esses temas em detrimento de questões morais e provocações, Flávio se afastou do tom do pai, avalia Gomes. “Todo mundo estava observando para ver se Flávio era Jair 2 ou se era outra pessoa”, acrescenta, o que beneficiou o candidato.
O resultado, porém, não pode ser atribuído apenas à campanha, pondera Aggio. “Não dá para dizer que teve um efeito direto da campanha do Flávio, dá para dizer que ele achou a agenda certa”, afirma. Flávio venceu nos três maiores colégios eleitorais do país, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e no Sul, enquanto Lula liderou em estados do Nordeste.
Fora da propaganda, Flávio contou com uma rede de vereadores, prefeitos, deputados e influenciadores alinhados ao bolsonarismo, que o PT nunca conseguiu formar, segundo Bruno Bolognesi, professor de ciência política da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Para ele, o petista fez uma campanha nos moldes de 2002, sem considerar que essa articulação funciona hoje em escala local.
Segundo Bolognesi, trata-se também do desgaste de um partido que ocupou a Presidência por cerca de 20 dos últimos 24 anos, fenômeno que a ciência política observa em governos longevos.
Mas a proibição das bets, tratada pela propaganda petista como problema de saúde pública e associada ao endividamento das famílias, foi um acerto de Lula, avalia Aggio. Sem essa correção de rota, afirma, Flávio poderia ter vencido já no primeiro turno.
Os ataques ao adversário, que também ganharam peso na propaganda do PT, são naturais para quem disputa com um candidato em crescimento, mas a plataforma não pode se resumir a isso, diz Aggio.
A campanha, e inclusive a falta em todos os debates, falou sobretudo para quem já vota no PT, sem buscar eleitores neutros ou os que votaram em Lula em 2022 mesmo sem serem petistas, avalia Wilson Gomes.
Falas de Lula e da primeira-dama Janja em atos de campanha também prejudicaram o mandatário, segundo o professor da UFBA. Transformadas em cortes nas redes repercutiram mais do que a propaganda na TV, que as pessoas veem cada vez menos, diz.
Lula e Flávio chegaram à votação com a mesma rejeição, de 45% cada um, segundo o Datafolha. Para Gomes, o antipetismo e o antibolsonarismo se neutralizaram em parte, mas, no fim do primeiro turno, o antipetismo levou eleitores de direita a se concentrarem em Flávio, visto como o mais viável para derrotar o PT. “São duas eleições com dois candidatos com o piso alto e o teto baixo”, diz.
A campanha de Lula deve passar por mudanças profundas no segundo turno, tentando aproximação com o digital, e deve apostar em medo de fim de programas sociais para aumentar rejeição a Flávio.
Já a do Flávio tende a manter a estratégia, segundo Aggio. Na noite da votação, o presidente do PT e coordenador da campanha, Edinho Silva, disse que a ideia é confrontar os projetos dos dois candidatos. Lula afirmou que fará um apelo aos eleitores que não votaram. A abstenção foi recorde, de 21,08%, o equivalente a 33,4 milhões de pessoas.
As duas campanhas caíram no erro de exibir um clima de vitória antecipada em algum momento, afirma Gomes. Ele cita a declaração de Lula, após a apuração, de que estava convencido de que venceria no primeiro turno. Do lado de Flávio, menciona a fala do senador sobre usar a vantagem da direita no Congresso para mudar a Constituição e “redemocratizar o país”.
Na quarta-feira (7), Flávio disse que se referia a propostas como a redução da maioridade penal e o fim da reeleição. Para Gomes, o clima de vitória antecipada tende a desmobilizar o eleitor, que passa a achar o próprio voto desnecessário, e a provocar reação contrária. “Os brasileiros não gostam muito de salto alto”, afirma.









