RAPHAEL DI CUNTO
MACAPÁ, AP (FOLHAPRESS)
Acostumado a desafiar presidentes da República, Davi Alcolumbre (União Brasil) está com o futuro ameaçado por um político regional, o ex-prefeito de Macapá Dr. Antônio Furlan (PSD), que lidera com folga as pesquisas para o governo do Amapá. Sob risco de ficar isolado quando for tentar a própria reeleição, em 2030, o presidente do Senado usa toda a sua influência em Brasília para tentar evitar a derrota de seu grupo político.
Alcolumbre indicou dois ministros de Estado, controla um orçamento bilionário de emendas parlamentares e cargos federais, como a direção da poderosa Codevasf, estatal responsável por obras para a redução de desigualdades regionais que ele levou até o Amapá para distribuir obras e máquinas.
Conta ainda com o apoio de 90% dos deputados estaduais e federais, 15 dos 16 prefeitos do estado e do líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), além do atual governador Clécio Luís (União Brasil), eleito no primeiro turno há quatro anos.
Alcolumbre também montou a maior coligação nesta eleição, com 12 partidos, usando o prestígio junto aos presidentes nacionais das siglas. Até o presidente Lula foi ao Amapá durante a campanha eleitoral, embora o estado seja geralmente ignorado nas corridas nacionais.
O adversário, contudo, é o favorito, com o apoio de apenas quatro partidos. Impulsionado por uma agenda popular, com a realização de shows gratuitos, exposição intensa nas redes sociais e a execução de obras que alteraram a paisagem de Macapá, Dr. Furlan se vende como “prefeitão” e promete levar “seu modelo de gestão” para o resto do estado.
Em 2024, Dr. Furlan foi reeleito prefeito com 85% dos votos. A votação já seria expressiva por si só, mas tem peso maior no Amapá, onde 55% dos 577 mil eleitores estão na capital, e outros 15% na região metropolitana.
Na atual corrida ao governo estadual, segundo pesquisa Quaest feita de 21 a 24 de agosto, o ex-prefeito tem 55% dos votos, contra 35% do atual governador, aliado de Alcolumbre.
O presidente do Senado não é candidato nesta eleição, mas atua como se fosse. Na noite do dia 14 de agosto, um dia antes do início oficial da campanha, Alcolumbre passou quatro horas distribuindo abraços, ouvindo demandas e dançando brega numa gigantesca feira em Macapá -evento retomado pela atual gestão para confrontar o ex-prefeito e seus shows gratuitos.
Durante o evento, Alcolumbre é abordado por eleitores. Um homem se aproxima e diz que é produtor de mel em Laranjal do Jari, município no sul do estado. Ele pede que a energia chegue à sua comunidade.
“Falta o fio”, reclama. “Precisa da subestação, vamos resolver. Eu sei tudo, eu sei tudo”, responde o senador.
A atenção exacerbada a demandas de seu estado, mesmo quando estão em debate questões de interesse nacional, é o que explica por que Alcolumbre recebeu o jocoso apelido de “vereador do Amapá” em Brasília. Em Macapá, no entanto, moradores, aliados e adversários relatam que ele costuma ser bem recebido nos lugares e que são raros os episódios de cobrança pública.
Um desses casos ocorreu no domingo (13), quando o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) desembarcou em Macapá com bolsonaristas de outros estados para organizar uma manifestação contra Alcolumbre e cobrar o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal). Não havia nenhum político local com mandato no ato.
Pessoas do Amapá relatam ter mais referências de Alcolumbre como um catalisador de investimentos federais para o estado. A percepção contrasta com a imagem que ele construiu nacionalmente, onde é cercado por suspeitas de corrupção, desvios de emendas parlamentares e ocupação ampla de cargos públicos como moeda de troca com o governo de turno.
“A gente não julga o Davi pelas coisas que o povo fala por aí”, diz Everton Barbosa, coordenador de uma UBS (Unidade Básica de Saúde) recém-reformada no município de Itaubal, a cem quilômetros da capital. “Ele fez coisas grandiosas pelo Amapá. Esse desenvolvimento que você vê aqui só chegou com o Davi”, afirma.
Ao lado da UBS, um conjunto habitacional foi erguido com 21 casas e uma escola municipal está em construção -tudo financiado por emendas parlamentares apadrinhadas por Alcolumbre, em modalidades com pouca transparência e contestadas pelo STF.
Os recursos enviados pelo senador, somados à privatização do serviço de saneamento em 2021 -graças ao marco legal aprovado na primeira gestão de Alcolumbre no Senado-, mudaram a realidade de Itaubal.
Há dez anos, só duas ruas eram asfaltadas. Agora há calçamento em quase todas. Também foram construídas praças, escolas, UBS e até uma nova sede para a prefeitura.
Ao lado de uma dessas novas praças, um pedreiro conversou com a Folha de S. Paulo enquanto erguia o muro de uma loja. Ele diz que não se ouvem queixas sobre o presidente do Senado por lá porque todo mundo sabe que Alcolumbre “traz obras”.
O pedreiro pede para não ter o nome citado para registrar uma queixa. Segundo ele, as oportunidades de trabalho em obras públicas da cidade costumam ser destinadas a parentes, amigos e aliados de representantes locais. Relatos semelhantes foram feitos por quatro moradores de cidades da região, dois assessores de políticos e um empreiteiro.
As declarações apontam para a grande dependência da economia local em relação ao poder público. É com essa realidade que Alcolumbre trabalha para virar a desvantagem eleitoral.
“Nós vamos vencer pela política. Anota o que eu digo, vamos virar”, diz Alcolumbre à reportagem. “Se não fossem as emendas, o Amapá estaria ainda na década de 1940.”
A defesa das emendas é uma das poucas declarações que o senador dá sobre política. Auxiliares dizem que ele tem receio de escorregar nas falas. Uma delas, em 2020, ajudou a eleger seu adversário.
Dr. Furlan disputava o segundo turno contra o irmão de Alcolumbre, Josiel. Naquele momento, o Amapá sofria uma série de apagões em razão de deficiências na distribuição de energia local. Alcolumbre disse em uma rádio que o principal prejudicado pela falta de luz era ele próprio, porque o irmão já estaria eleito se não fosse o desastre que deixou a população por dias no escuro. O eleitor não perdoou.
Furlan assumiu a prefeitura com R$ 87 milhões em emendas parlamentares já enviadas pelo governo federal e R$ 381 milhões oriundos da privatização do saneamento. As verbas haviam sido planejadas para irrigar a gestão de Josiel Alcolumbre, mas acabaram ajudando o adversário. Dr. Furlan aplicou o dinheiro em obras que mudaram a cara da capital e quase levaram a uma derrota de Alcolumbre na eleição seguinte, em 2022, quando concorreu contra a esposa do então prefeito.
A dedicação de Alcolumbre este ano, explicam aliados, é pelo risco de ver a estrutura do governo estadual mudar de lado e atuar contra ele em 2030. Rayssa, a esposa de Furlan derrotada em 2022, é hoje favorita para uma das vagas ao Senado. Com o governo em mãos, como apontam as pesquisas, o grupo adversário também ficaria mais forte para cooptar prefeitos e deputados.
Nessa disputa, o grupo de Alcolumbre aposta também no Judiciário. O principal aliado de Dr. Furlan, então vice em Macapá, está afastado desde março por decisão do STF. Com isso, a prefeitura está nas mãos de um aliado do presidente do Senado.
O Ministério Público Eleitoral também acusa Dr. Furlan de tentar burlar a Lei da Ficha Limpa ao renunciar ao cargo, em março deste ano, após um pedido de impeachment por ele agredir um jornalista. O candidato diz que a Câmara Municipal -controlada por um aliado de Alcolumbre- fraudou o protocolo e acelerou os trâmites para tirá-lo do cargo, o que o levaria à inelegibilidade por oito anos.
Dr. Furlan está com a candidatura autorizada, mas um recurso tramita no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), sob relatoria do ministro Dias Toffoli, que é próximo ao presidente do Senado.








