Pecuária brasileira usa por ano mais água do que SP, RJ, BA, PR e DF somados, diz estudo

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Pecuária brasileira usa por ano mais água do que SP, RJ, BA, PR e DF somados, diz estudo

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JÉSSICA MAES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O agronegócio brasileiro está usando uma parcela significativa da água do país para produzir carne e soja.

Só a pecuária precisa de 10,1 bilhões a 10,4 bilhões de metros cúbicos de água ao ano para manter o rebanho. Esse volume, vindo de rios e aquíferos, é maior do que o utilizado pelas populações dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná e do Distrito Federal somadas, que é de 7,8 bilhões de m³.

Já as lavouras do principal grão exportado pelo Brasil consomem de 188 bilhões a 206 bilhões de m³ de água anualmente –ou sete vezes a capacidade da represa da usina hidrelétrica de Itaipu, de cerca de 29 bilhões de m³. Praticamente todo esse montante é proveniente de água da chuva, com a irrigação respondendo por aproximadamente 8% do total (0,96 bilhão a 1,7 bilhões de m³).

Os números são de uma nova análise da Trase, iniciativa que rastreia cadeias produtivas, e se baseiam em bancos de dados da plataforma Mapbiomas e da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento). A pesquisa considera o período de 2015 a 2017, escolhido por representar a melhor qualidade e a compatibilidade dos dados necessários.

O setor agrícola é o maior usuário de água doce do mundo, representando 70% dos 4 trilhões de m³ utilizados pela humanidade em 2020, de acordo com o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos.

“Queremos mostrar justamente o nosso uso indireto de água, aquele consumido através de produtos”, explica Michael Lathuillière, pesquisador sênior do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo, um dos autores do estudo. “O Brasil, de certa forma, está exportando recursos hídricos.”

O estudo da Trase calcula o nível de dependência dos maiores exportadores de soja e carne bovina de cada uma das 12 regiões hidrográficas do Brasil.

“Os grandes exportadores têm essa posição interessante na cadeia produtiva e podem começar a avaliar não somente a sua dependência dos recursos hídricos ao longo da cadeia, mas também os riscos que podem correr com a falta de água em alguns lugares do Brasil”, diz o cientista.

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Segundo a análise, os quatro maiores comerciantes de carne bovina do país –JBS, Minerva, Marfrig e Mataboi Alimentos– dependem principalmente das bacias Paraná (28%), Tocantins-Araguaia (26%) e Amazônica (23%), sendo que 23% da produção está em outras bacias.

A maior parte da água associada à pecuária não é diretamente consumida pelos animais. O gado normalmente mata a sede por meio de pequenos reservatórios, de onde uma grande quantidade de água evapora, representando dois terços de toda a água utilizada na produção.

Como resultado dessa perda, menos água fica disponível para outros usos a jusante, como seres aquáticos, ecossistemas, consumo doméstico ou industrial e produção de energia.

Já os cinco maiores comerciantes de soja do Brasil –Bunge, ADM, Cargill, Louis Dreyfus e Cofco– necessitam principalmente da bacia do rio São Francisco para o abastecimento da soja irrigada.

Na prática, isso significa que essas cadeias produtivas, altamente concentradas na amazônia e no cerrado, estão suscetíveis ao fenômeno da escassez hídrica –que já atinge o país e tende a se intensificar sem uma transição ecológica da economia.

Não apenas por causa da crise climática, que nas próximas décadas deve mudar padrões de chuva e fazer boa parte do país perder água, mas também pelo avanço do desmatamento.

Um estudo de 2024 mostrou que o desequilíbrio climático provocado pelo desmate gerou um prejuízo de US$ 1,03 bilhão (cerca de R$ 5,8 bilhões) na produção de soja e milho na amazônia de 2006 a 2019.

Isso porque a destruição da floresta impacta o clima da região. Desde 1980, há um atraso na chegada da temporada de chuvas e redução no volume anual, além de aumento nas temperaturas.

No cerrado, uma pesquisa publicada em junho passado mostrou que a vazão dos rios diminuiu 27% desde a década de 1970. A perda corresponde a 30 piscinas olímpicas por minuto que deixam de fluir pelos corpos d’água. Também houve redução de 21% nas chuvas no bioma.

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A escassez de fontes de água superficial e subterrânea pode afetar tanto o gado quanto a soja irrigada devido à redução no fluxo de rios ou níveis de aquíferos, mas também devido à competição por recursos hídricos nas regiões em que estão instaladas.

Segundo o estudo, a exposição à escassez hídrica das principais empresas exportadoras de carne é bastante concentrada. Das companhias analisadas, apenas a Marfrig não está sujeita a um nível crítico de falta de água na bacia do São Francisco. No entanto, um terço das exportações do frigorífico está exposto a um nível alto de escassez nas bacias do Atlântico Sul e Uruguai.

“Há uma questão em relação às outorgas de captação de água no Brasil, em que muitos reservatórios são construídos sem autorização”, afirma Lathuillière. “Há um problema político e de gestão nas fazendas.”

Já no caso da soja, que é muito dependente da chuva, as condições climáticas têm um grande impacto.

Os principais exportadores do grão no Brasil obtêm a maior parte da sua produção de regiões com uma probabilidade de seca de 10% a 20%. O quadro mais crítico, de acordo com a pesquisa, é a Bunge, que tem mais de um terço da sua produção em municípios com chance de estiagem superior a 20%.

O estudo propõe possíveis caminhos para abordar a dependência de recursos hídricos dos grandes produtores de commodities.

“Exportadores, governos e financiadores têm um papel a desempenhar. Desde o estabelecimento de metas para o uso da água na cadeia de suprimentos e a melhoria dos relatórios até o alinhamento de políticas e crédito com o uso sustentável da água, a ação coordenada pode reduzir os riscos”, diz o documento.

Os pesquisadores também ressaltam que é essencial expandir a transparência da cadeia de suprimentos para questões ambientais além do desmatamento, incorporando indicadores de uso da água para um comércio mais sustentável.

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