Ataque de Trump viola direito internacional, mas segue brechas da lei americana, diz especialista

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Ataque de Trump viola direito internacional, mas segue brechas da lei americana, diz especialista

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ISABELLA MENON
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou uma ação militar direta contra a Venezuela e capturou o ditador Nicolás Maduro. A ação, segundo a análise da doutora em direito internacional Priscila Caneparo, viola regras, mas tem pouco risco jurídico interno.

De acordo com o direito internacional, o ataque pode configurar ato ilícito. “A Carta das Nações Unidas só autoriza intervenção militar com aval do Conselho de Segurança ou em legítima defesa, o que não se verifica nesse caso”, diz a especialista.

“Classificar o governo de Maduro como um narcoestado pode até servir como retórica política, mas é uma justificativa que o direito internacional não vai comprar”, afirma Caneparo.

Há limites, porém, para a ação da ONU. Os EUA são membro permanente do Conselho de Segurança e, por isso, têm poder de veto sobre qualquer decisão. Segundo Caneparo, o que pode conter Trump no cenário internacional é o jogo de interesses das grandes potências, como Rússia e China, que apoiam Caracas.

No cenário doméstico, Caneparo explica que, segundo a legislação americana, o Executivo deve notificar o Congresso com antecedência sobre ações militares —salvo no caso do uso da lei antiterror, usada no caso da Venezuela.

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Trump já havia indicado, no dia 18 de dezembro, que não se sentia obrigado a informar o Congresso sobre eventuais ataques contra a Venezuela, argumentando que havia preocupação com vazamentos de informação por parte de parlamentares.

“Eu não me importaria, mas […] não preciso dizer a eles. Está comprovado, mas não me incomodaria em absoluto”, disse Trump ao ser questionado. “Apenas espero que não vazem [informações]. Vocês sabem, as pessoas vazam. São políticos, e vazam como uma peneira.”

O episódio aciona os dispositivos da Lei de Poderes de Guerra, de 1973, aprovada após a Guerra do Vietnã para limitar ações militares unilaterais da Casa Branca. Embora o presidente seja o comandante em chefe das Forças Armadas, a Constituição atribui ao Congresso a autoridade para declarar guerra.

Na prática, porém, há décadas os presidentes americanos evitam declarações formais de guerra e têm recorrido a resoluções do Congresso ou a interpretações amplas de seus poderes constitucionais para autorizar operações militares limitadas no exterior.

Segundo o site do Senado dos Estados Unidos, a última declaração formal de guerra aprovada pelo Congresso ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Desde então, o Legislativo tem autorizado o uso da força por meio de resoluções específicas e exerce influência sobre a política militar principalmente por meio do controle orçamentário e da supervisão das operações

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“O Congresso pode até tentar barrar ou não autorizar a continuidade dos ataques, mas isso não necessariamente importa para o Trump”, diz Caneparo.

Abusos de poder até podem levar a um processo de impeachment —Trump já sobreviveu a dois.
O jornal The New York Times conversou com Trump após a ação militar. O repórter Tyler Pager questionou se houve consulta prévia ao Congresso antes de as Forças Armadas realizarem o que o próprio Trump descreveu nas redes sociais como um “ataque em larga escala”.

“Vamos discutir isso”, respondeu o presidente ao jornal americano, que convocou uma entrevista coletiva para o início da tarde deste sábado.

“Quem pode parar Trump é a própria base aliada, especialmente o movimento Maga [acrônimo em inglês para ‘faça a América grandiosa novamente’, o slogan de Trump], que é contrário a intervenções militares fora dos Estados Unidos”, diz Caneparo.

Em meados de dezembro, a Câmara rejeitou por margem apertada duas resoluções apresentadas por democratas que exigiriam autorização explícita do Congresso para a campanha militar do governo Trump no Caribe —uma voltada a ataques a embarcações e outra a “hostilidades dentro ou contra a Venezuela”.

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