Mensagens de empresário e lobista abrem novos flancos em inquérito sobre venda de decisões no STJ

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Mensagens de empresário e lobista abrem novos flancos em inquérito sobre venda de decisões no STJ

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JOSÉ MARQUES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Os dados dos celulares de um empresário e de um lobista são considerados os principais flancos para o avanço das investigações da Polícia Federal na operação Sisamnes, que apura suspeitas de venda de decisões e vazamentos em gabinetes do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

No início de outubro, a PF apresentou um relatório preliminar da operação, cuja primeira fase irá completar um ano em novembro. O relatório resume as principais linhas investigativas da Sisamnes até o momento.

Por ora, não há ministros investigados na operação, que está sob a responsabilidade de Cristiano Zanin, do STF (Supremo Tribunal Federal). No entanto, segundo pessoas com conhecimento das apurações, o inquérito deve se expandir a partir de informações cuja análise ainda será concluída pela polícia.

A previsão é de que eventuais novos desdobramentos do inquérito se concentre em extrações de mensagens e de outras informações obtidas em fases anteriores da operação.

Um desses celulares cujos dados estão sendo extraídos é o de Haroldo Augusto Filho, da empresa de gestão patrimonial Fource. Ele foi alvo de medidas cautelares e de busca e apreensão na primeira fase da Sisamnes.

Segundo a PF, a Fource foi concebida sob a aparência de uma empresa especializada em recuperação judicial e reestruturação de companhias de crise, mas foi “instrumentalizada como um mecanismo de burlar credores e manipular processos judiciais em benefício próprio”.

Parte dos processos sob suspeita de terem sido negociados em gabinetes do STJ e de outros tribunais eram de interesse de Haroldo, de seu sócio Valdoir Slapak e da empresa de consultoria.

As informações contidas em seu celular podem ajudar a robustecer as provas atuais, que foram inicialmente obtidas no aparelho de um advogado assassinado em 2023, e localizar novas pessoas sob suspeitas de terem cometido irregularidades.

O grupo Fource disse em nota que “repudia veementemente o conteúdo do relatório da Polícia Federal, cuja fragilidade salta aos olhos”.

“O documento se baseia em meras relações e conclusões subjetivas, sem apresentar qualquer elemento concreto ou prova que sustente as alegações ali contidas”, diz a empresa.

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“Trata-se de um relatório que ignora a ausência de irregularidades efetivas, apoiando-se em mensagens descontextualizadas e em opiniões isoladas de um delegado, sem fundamento técnico ou jurídico capaz de justificar as ilações apresentadas”, afirma a nota.

“Mais uma vez, assistimos a um preocupante cenário de denuncismo e de ilações infundadas, próprio de um ambiente de viés policialesco, em que o direito de defesa e o devido processo legal são amplamente atacados e colocados em segundo plano.”

A empresa diz ainda que sua defesa não teve acesso integral aos documentos da investigação e que, até agora, “as conclusões apresentadas sejam tão levianas, frágeis e desprovidas de qualquer respaldo probatório”.

“A Fource lamenta profundamente a utilização da imprensa como meio para a divulgação e o vazamento de informações sigilosas, o que fere princípios básicos do devido processo legal e do direito à ampla defesa.”

Outra análise sob a qual há expectativa de abrir novos flancos na operação é a nuvem do celular do lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, considerado o pivô da Sisamnes e suspeito de ser o principal operador do esquema.

Uma parte dos dados extraídos da nuvem de Andreson já ajudou a revelar contatos mantidos com servidores e magistrados que também são suspeitos de atuarem no esquema que envolve o STJ.

O novo material deve mostrar de forma mais profunda o contato de Andreson com servidores dos tribunais, inclusive em momentos posteriores ao período que tem sido atualmente investigado. O novo período sob análise pode levar a investigação a outros rumos.

Procurado, o advogado de Andreson, Eugênio Pacelli, disse que “pelo visto, somente esta defesa está cumprindo e respeitando o sigilo imposto à investigação” e que tem “evitado comentar o que não deveria ser tornado público, segundo a decisão do ministro relator”.

“Mas há algo que precisa ser dito: há mais de um ano teve início essa investigação, com prisão e diversas outras medidas cautelares. Isso é de conhecimento público, infelizmente. Mas até hoje não se apontou uma única razão de essa investigação se encontrar no STF”, afirma Pacelli.

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“Não há autoridades com foro naquela corte sendo investigadas! Jurisdição condicionada a evento futuro e incerto?”, questionou o advogado.

Apesar de ministros não serem investigados, o inquérito prossegue no Supremo, responsável por supervisionar investigações que envolvam integrantes do STJ e outras autoridades com foro especial, por três motivos, segundo o relatório da PF.

O primeiro é evitar que diligências consideradas sensíveis, inclusive em dependências do próprio STJ, sejam anuladas. Outro motivo é resguardar a investigação contra ingerências externas. O terceiro é preservar a possibilidade de que novas provas possam envolver autoridades com foro no STF —como os próprios ministros.

Além disso, um terceiro caminho para as investigações é avançar sobre a análise das empresas de Nilvan Marques Medrado, apontado como responsável técnico-contábil por diversas empresas vinculadas a Andreson e Mirian Ribeiro, a esposa do lobista.

Segundo as apurações da PF, se tratam de empresas de transportes rodoviários, terraplanagem e até de táxi aéreo. Por essas empresas circulava o dinheiro que está sob suspeita de ser oriundo de operações ilegais.

Nilvan, de acordo com as investigações, é contador de 152 empresas, a maioria sediada em Mato Grosso e trabalha no setor de transportes. Desse total, 49 foram constituídas entre 2021 e 2022.

A PF diz que esse intervalo de tempo “revela um padrão de rotatividade empresarial típico de sistemas sofisticados de lavagem de dinheiro”.

O órgão pediu o aprofundamento da análise societária sobre as empresas ligadas a Nilvan, “uma vez que os vínculos entre sócios, familiares e servidores públicos podem revelar novas ramificações do núcleo de corrupção judicial, ampliando o alcance probatório e permitindo o mapeamento integral da rede contábil e financeira que sustenta o esquema”.

Procurado por mensagem de texto e email desde a manhã de terça (21), Nilvan Medrado não retornou os contatos da reportagem.

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